sábado, março 25, 2006

Juan Manuel Serrat e Alfonsina Storni, lugares primeiros da minha construção

lia.net




Powered by Castpost


Diante do mar

Oh, mar, enorme mar, coração feroz
de ritmo desigual, coração mau,
eu sou mais tenra que esse pobre pau
que, prisioneiro, apodrece nas tuas vagas.

Oh, mar, dá-me a tua cólera tremenda,
eu passei a vida a perdoar,
porque entendia, mar, eu me fui dando:
"Piedade, piedade para o que mais ofenda".

Vulgaridade, vulgaridade que me acossa.
Ah, compraram-me a cidade e o homem.
Faz-me ter a tua cólera sem nome:
já me cansa esta missão de rosa.

Vês o vulgar? Esse vulgar faz-me pena,
falta-me o ar e onde falta fico.
Quem me dera não compreender, mas não posso:
é a vulgaridade que me envenena.

Empobreci porque entender aflige,
empobreci porque entender sufoca,
abençoada seja a força da rocha!
Eu tenho o coração como a espuma.

Mar, eu sonhava ser como tu és,
além nas tardes em que a minha vida
sob as horas cálidas se abria...
Ah, eu sonhava ser como tu és.

Olha para mim, aqui, pequena, miserável,
com toda a dor que me vence, com o sonho todos;
mar, dá-me, dá-me o inefável empenho
de tornar-me soberba, inacessível.

Dá-me o teu sal, o teu iodo, a tua ferocidade,
Ar do mar!... Oh, tempestade! Oh, enfado!
Pobre de mim, sou um recife
E morro, mar, sucumbo na minha pobreza.

E a minha alma é como o mar, é isso,
ah, a cidade apodrece-a engana-a;
pequena vida que dor provoca,
quem me dera libertar-me do seu peso!

Que voe o meu empenho, que voe a minha esperança...
A minha vida deve ter sido horrível,
deve ter sido uma artéria incontível
e é apenas cicatriz que sempre dói.

Alfonsina Storni

NOTA: Peço a quem me puder ajudar que me explique o déficit de qualidade na postagem da música. Obrigada.

quarta-feira, março 22, 2006

Luiza Neto Jorge: toda a música para sempre

Edward Hopper 1932 http://www.hopper.com.br/obras/indexobras.htm

A casa do mundo

Aquilo que às vezes parece
um sinal no rosto
é a casa do mundo
é um armário poderoso
com tecidos sanguíneos guardados
e a sua tribo de portas sensíveis.

Cheira a teias eróticas. Arca delirante
arca sobre o cheiro a mar de amar.

Mar fresco. Muros romanos. Toda a música.
O corredor lembra uma corda suspensa entre
os Pirinéus, as janelas entre faces gregas.
Janelas que cheiram ao ar de fora
à núpcia do ar com a casa ardente.

Luzindo cheguei à porta.
Interrompo os objectos de família, atiro-lhes
a porta.
Acendo os interruptores, acendo a interrupção,
as novas paisagens têm cabeça, a luz
é uma pintura clara, mais claramente lembro:
uma porta, um armário, aquela casa.

Um espelho verde de face oval
é que parece uma lata de conservas dilatada
com um tubarão a revirar-se no estômago
no fígado, nos rins, nos tecidos sanguíneos.

É a casa do mundo: desaparece em seguida.

Luiza Neto Jorge, O seu a seu tempo


http://www.geocities.com/ail_br/luizanetojorgeouapresentacao.html

http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/luiza_neto_jorge/poetas_luizanetojorge01.htm

http://maniasymanias.blogspot.com/2005/12/luiza-neto-jorge.html

segunda-feira, março 20, 2006

cantiga de amor em prosa quase acidental

http://www.poulhanslange.com/


Segurar os dias
Por isso quero hoje abraçar-te, hoje sem falta, já passou muito tempo desde que te prometi esta viagem.
Tenho-te ao meu alcance, da minha mão, dos meus dedos que sempre apertaram os teus, nas mãos dadas que nunca demos. A ponte está firme, apesar de oscilar, o tremor que sinto vem de dentro e tu não o vês nem nunca verás, porque é este o meu destino, a que já não fujo.

Segurar a ponte, segurar os dias, segurar os nomes de quem faz parte de mim, que me pertence e a quem pertenço.


Maria Armandina Maia

os amigos são fadas que nos põem a mão no coração

http://www.poulhanslange.com/

Cantiga de amigo

Nem um poema nem um verso nem um canto
tudo raso de ausência tudo liso de espanto
e nem Camões Virgílio Shelley Dante

o meu amigo está longe
e a distância é bastante.

Nem um som nem um grito nem um ai
tudo calado todos sem mãe nem pai
Ah não Camões Virgílio Shelley Dante!

o meu amigo está longe
e a tristeza é bastante.

Nada a não ser este silêncio tenso
que faz do amor sozinho o amor imenso.
Calai Camões Virgílio Shelley Dante:
o meu amigo está longe
e a saudade é bastante!

Ary dos Santos

sábado, março 18, 2006

Sobre os lugares interiores de cada um

António Ferra 2006

Esqueci-me do linho que queria ainda estrear, tirar da gaveta as toalhas e lençóis, e deitar-me neles, lavados, frescos, para depois os amarrotar de abraços e beijos.
Esperava o sol, que durou pouco. Mas espero sempre o sol. Vou esperá-lo até ao fim dos meus dias.

Mas o pó “é lixado”, como dizem os teus versos, que eu não consigo trazer ao de cima porque ainda não te conheço. Só sei que te gosto e te trato bem nos meus intervalos de grandes solidões, à espera que as grades se fechem que os serãos sejam mais bonitos, que os jardins me pertençam.

Trouxe flores comigo e o meu mundo, imperfeito, incandescente, mas vivo e cruamente honesto. Pus-me toda numa bandeja, como se mudasse de país. Vim para ti, a esquecer as dores e a dor, imensa, imensa.

Mas fecharam-nos as portas do jardim secreto e, quando o regas, lembras-me, infalivelmente, que devia ter sido eu a regá-lo. Eu, que amo os jardins na rua, eu que pensei que não havia nada de mal em passear nos jardins: aqui das redondezas, ou outros, os que nos levam a cruzar pessoas e a inventar-lhes a vida.

Cada um tem o seu quarto de trabalho interior. O meu está, em grande parte, nos corpos e nas vozes de quem cruza o meu caminho. Não deixes, por isso, de regar os jardins.

Armandina Maia

Correspondência(s), a tempo de nos salvar a memória

Lady with Her Maidservant Holding a Letter c.1667

Para a Armandina Maia

Querida Amiga,

Toma os comprimidos. Ao acordar, ao almoço, ao jantar.
Mas não escondas na gaveta a lâmina das palavras.
Olha a injecção, o bater do coração.
Mas não rasgues as páginas do teu romance.
Quanto a inalações, a casca de três limões.
Mas não deixes definhar o sentido da “grítica”.
Grita, refila, gesticula.
E antes de dormir faz o lava-pés
Para não deixares de ser quem és.
Mas não te submetas. Muito menos a ti própria.
Porque é assim que gostamos de ti.

P.S. E da paisagem ( alentejana, quem diria !), faz o que quiseres.
Mas não te esqueças. Toma-se às colheres.

Carlos e Marina Brandão Lucas, Natal 2000

terça-feira, março 14, 2006

como se tudo fosse princípio

Lembro-me bem da menina vestida de anjo, no corpinho coberto do tecido acetinado, envolvida em plumas esvoaçantes, com uma coroazinha na cabeça que a fazia sentir a aura dos dias nobres.
Conto vezes sem conta como chorava ao ter de deixar a roupa de anjo para ser uma menina igual às outras. Conto com pormenores de rigor que vou inventando, a segurar aquele pedaço de infância traída pela pressa da vida ou pela vida de pressa que encurtou a família não muito depois do anjo ter despido as vestes.
Conto-a e reconto-a, ouço-a contar – coisa rara nos meus ouvidos pobres de recordações – e dou corda a esta menina que dentro levava o vento e aragem, num baile que ninguém via, (só os anjos) mas que faziam os seus pés pisar as pedras como se aquele fosse o caminho da luz.

Como se tudo fosse princípio.
Maria Armandina Maia










domingo, março 12, 2006

Daniel Filipe e Mito, com João Cabral a uma só voz

Mito nha cabra-cega

HOMENAGEM EM FORMA DE CABRA

João Cabral, tua cabra
tensa, rude, agreste mola,
só cabra porque se isola
onde não há porta que abra

para outro fim que não seja
ser imaterial, mas sendo
o osso do osso, aprendendo
da alada, lírica narceja

o voo em atitude exacta,
está presente na paisagem
como coisa, não miragem
inconcreta, embora grata.

Está por dentro de si, toda.
Cabra até aos cascos finos,
confidente de meninos,
mote em cantiga-de-roda.

Está, João Cabral, bastante
no lugar, no tempo, só.
Cabra mito, sol-e-dó,
vento e calor do levante.

Daniel Filipe, “A Ilha Imaginada”, Pátria, lugar de exílio

http://www.tanboru.org/mito/expPavana.htm

ESTE POST FOI CONCEBIDO A PARTIR DE http://www.aulil.blogspot.com/, CUJA LEITURA SE RECOMENDA, QUANTO MAIS NÃO SEJA PELA EXCELENTE TROCA DE ESTÉTICAS INSULARES.

CLICANDO AQUI, PODERÁ OUVIR POESIA DE DANIEL FILIPE POR ANTÓNIO CARDOSO PINTO

sábado, março 11, 2006

Viriato Teles: quando a vida troca as contas do que nos deve

www.cm-lousa.pt

(...) Não me sinto órfão de Abril nem deserdado de Novembro, quanto mais não seja porque nasci em Março e fui pai em Junho. Mas também acredito na força da memória como elemento de preservação (...)
Do que eu gostava mesmo era que (...), de uma vez por todas, Portugal deixasse de ser um país tristonho e percebesse que há outra vida que vale a pena viver para além da vida real dos hipermercados, das sms e das telenovelas de aquém e de além-mar. E que, de uma vez por todas, a dignidade humana deixasse de ser um privilégio para passar a ser um direito universal e, portanto, não sujeita às leis da competitividade - que, como bem aprendemos nos últimos anos, não só não rima com liberdade como dá cabo da língua.

ViriatoTeles, Contas à vida, Histórias do tempo que passa

http://www.aeiou.pt/registos/v/Viriato_Teles_Pagina_pessoal.html
http://attambur.com/Noticias/20021t/fausto.htm
http://www.novacultura.de/0305bocasdecena.html
http://amegafauna.blogspot.com/2005/08/ltima-entrevista-de-vasco-gonalves-por.html
http://www.revista.agulha.nom.br/ag34capa.htmhttp://lusomatria.com/noticias.php?noticia=1252

Portugal: (ainda e só) com as três sílabas do O'Neill

www.nickjenkins.net

Portugal

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miúdinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanídeos,
se fosses só a cegarregua do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

Alexandre O’Neill

http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/alexandre_oneill/poetas_alexandreoneill01.htm

http://www.astormentas.com/oneill.htm

http://www.vidaslusofonas.pt/alexandre_o_neill.htm

http://www.citi.pt/cultura/literatura/poesia/oneill/

http://www.triplov.com/letras/petrarca.htm

http://teiaportuguesa.com/fichaautoretrato.htm

http://nescritas.nletras.com/poetasapaixonados/deoneill/

http://vemosouvimoselemos.blogspot.com/2006/01/alexandre-oneill.html

http://www.criticaliteraria.com/9725752422http://www.revista.agulha.nom.br/alexan.html



quarta-feira, março 08, 2006

Carlos Brandão Lucas: viagem ao coração dos homens

fotografia de Marina Brandão Lucas

“Entre margens” é talvez o lugar mais exacto para situar o trabalho de Carlos Brandão Lucas, que levantou as pedras do meio do caminho, ali postas há séculos como se fizessem parte da paisagem, e desatou a fazer perguntas. Entre margens, Brandão Lucas empoleirou-se no meio de um rio e começou a contar o que não cabe na cronologia dos arquivos.
O trabalho assinado por Carlos Brandão Lucas só não é “um voo cego a nada” por três razões. Porque o seu autor é um zeloso guardador de rebanhos, porque nunca esquece de que lado nasce o mar e, sobretudo, porque nunca trairá a memória dos homens, aquela que dá à "gente remota" um lugar na História.
Sem nunca perder de vista o rigor histórico e as fontes, Carlos Brandão Lucas seguiu no seu trabalho o ritual da memória como alicerces de uma ponte que permite aos homens conhecerem-se e aproximarem-se.
Carlos Brandão Lucas (d)escreve - e Marina Brandão Lucas fotografa (preciosamente) e produz - o testemunho daquilo que viu, tentando devolver-nos toda a integridade do seu deslumbramento, na sua unicidade original.
Não sei se chegará onde nos levará esta "grande viagem", porque é muito larga a água que corre entre estas margens. Sei que se a vocação multicultural deste trabalho é irreversível, pela trajectória que iniciou em torno da memória que nos une e que é, provavelmente, a nossa condição maior de sobrevivência .
Armandina Maia
http://www.museuhistoriconacional.com.br/mh-e-405.htm

segunda-feira, março 06, 2006

Amadeu Baptista: uma voz clara e brutal, como um choro que rompe a escuridão

pintura de Rogério Ribeiro

QUADROS PARA UMA EXPOSIÇÃO

(...)
outro combate enfrento, como se
ao material da memória viesse acrescentar-se
uma presença física carregada
do que é em mim a génese de um destino
e o seu entendimento, uma estranheza
que só em algumas coisas reconheço,
seja um caderno branco ou um jogo de anilinas,
um cavalete ou um labirinto,
seja um livro por ler ou o escuro vão de escada
onde vou amontoando frascos, pincéis,
tubos de tintas, figuras mitológicas,
cubos, triângulos, panos coloridos.
eu sei que essa presença é como uma ilusão
e que toda a ilusão é uma traição
no exacto sentido em que o desvendamento
é sempre uma ocultação do que se mostra.
por isso a minha arte é este rosto
em que continuadamente convoco a invenção
e nó a nó a corda do desenho
é parte convulsiva do que digo
e vou acrescentando ao mais vulgar sentido,
por ser a parte pertinente desta história
em que a história se vai redefinindo
para que o clímax se atinja e a floração irrompa
sob a forma de um silêncio
que não é mais que um grito inexorável.
estou na linha de fogo, o mais das vezes.
(...)

Amadeu Baptista, O som do vermelho, Campo das Letras

http://www.revista.agulha.nom.br/abaptista.html

http://um-buraco-na-sombra.netsigma.pt/p_mundo/index.asp?op=4&p=2369

http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/amadeu1.htm

http://www.novacultura.de/0505fabrica.html


domingo, março 05, 2006

Possidónio Cachapa: escrever para nos escrevermos

fotografia de Valter Vinagre

Já se perfilha a Ilha. Vêmo-la entre as ondas que descem. No cais, homens e mulheres nervosos, calados aguardam a sua acostagem. Cheira a flores colhidas em quintais pequenos de terra escura. Cheira a dever e a consternação. Há um homem entre todos. Sentou-se por momentos no degrau de cimento, a menos de 20 centímetros do local em que a água toca. Não lhe vemos a cara, ainda. Mas há qualquer coisa de familiar no jeito com que franze o rosto que começa a mostrar as marcas dos dias.
Uma mulher surpreendida pela velhice também aguarda. Tem o olhar duro e os olhos secos. Está ao pé do homem que perdeu a perna por amor. Os dois contra o céu, mesmo se nunca se tocarão até ao fim das suas vidas. Da casa-abrigo, onde os bilhetes nunca se vendem, chega o som do relato de futebol. O Vilanovense perdeu outra vez. Paciência.
Vai triste o "Capitão das Ilhas" e contudo, manso e decidido. Vai em direcção ao que tem de ser. Como todos nós.
Possidónio Cachapa, O mar por cima
http://prazer_inculto.blogspot.com

Lêdo Ivo: toda a porta aberta é uma porta fechada

http://eosweb.

A cilada

As portas voltarão sempre a abrir-se como lábios
mas a vida será sempre cilada
e quem passar debaixo de uma escada
haverá de morrer antes da madrugada

Quem afinado canta nunca alcançará
o outro lado. Só desmantelada é que a melodia
atravessa o dia. Só a dissonância
avança na névoa e vence a distância.

Quem não tem voz própria não o ouvirá
o vento que sopra. Uma voz fanhosa
surge no jardim, para espanto das rosas.

E toda a porta aberta é uma porta fechada.
Nosso destino não é uma linha reta.
São recuos, desvios, saltos e paradas.

Lêdo Ivo, Curral de Peixe

http://www.revista.agulha.nom.br/ledo.html

http://www.releituras.com/ledoivo_resposta.asp

http://gavea.blogspot.com/2004/09/ldo-ivo.html

Ana Paula Tavares: (d)a voz das heranças

www.virtual.epm.br/
A mãe e a irmã

A mãe não trouxe a irmã pela mão
viajou toda a noite sobre os seus próprios passos
toda a noite, esta noite, muitas noites
A mãe vinha sozinha sem o cesto e o peixe fumado
a garrafa de óleo de palma e o vinho fresco das espigas
[vermelhas
A mãe viajou toda a noite esta noite muitas noites
[todas as noites
com os seus pés nus subiu a montanha pelo leste
e só trazia a lua em fase pequena por companhia
e as vozes altas dos mabecos.
A mãe viajou sem as pulseiras e os óleos de proteção
no pano mal amarrado
nas mãos abertas de dor
estava escrito:
meu filho, meu filho único
não toma banho no rio
meu filho único foi sem bois
para as pastagens do céu
que são vastas
mas onde não cresce o capim.
A mãe sentou-se
fez um fogo novo com os paus antigos
preparou uma nova boneca de casamento.
Nem era trabalho dela
mas a mãe não descurou o fogo
enrolou também um fumo comprido para o cachimbo.
As tias do lado do leão choraram duas vezes
e os homens do lado do boi
afiaram as lanças.
A mãe preparou as palavras devagarinho
mas o que saiu da sua boca
não tinha sentido.
A mãe olhou as entranhas com tristeza
espremeu os seios murchos
ficou calada
no meio do dia.

Ana Paula Tavares, Dizes-me coisas amargas como os frutos

http://betogomes.sites.uol.com.br/AnaPaulaRibeiroTavares.htm#POESIA2

http://www.uea-angola.org/bioquem.cfm?ID=116

http://www.revista.agulha.nom.br/anap.html

http://lusomatria.com/noticias.php?noticia=107


sábado, março 04, 2006

Maria João Cantinho: nas sílabas do mundo, até quase não ser

Fotografia de Mariana Castro

A dança primordial

De todas as formas,
este é o meu modo de ser,
improvável lugar entre as dunas e perfeição do céu
o meu modo de ser estilhaçado,
perdido num mapa que trago oculto sob a língua,
esta cartografia secreta,
onde concentro a esperança
no fogo da palavra, em sílabas de luz.

Olha-me com a ternura da primeira vez,
vê e evoca: o vento dança na areia, cantando,
vê e recorda esses milhões de grãos de luz
que navegam no longe do mar
nesse lugar
em que poderíamos, ainda,
morar no espanto, nascer de novo
e soletrar, letra a letra,
a caligrafia luminosa do vento.

Mas não esqueças, meu amor,
como leve é a dança primordial dos corpos,
não esqueças o derradeiro fulgor do sol,
a perfeição que se desenha
por entre esse cortejo de sombras
as sombras da música, as sombras das vozes.

De todas as formas,
Este é o meu modo de ser, lenta inspiração,
nesta feroz alegria de ter um corpo
que avança contra a escuridão,
em direcção a ti, o enlouquecido coração
tão asa quanto a noite de Verão,
onde tudo se dobra, mansamente,
para beijar a terra e celebrar,
onde tudo se aquieta
até quase não ser e permanecer
a dança das coisas, os gestos suspensos,
não esqueças a respiração da terra e a glória secreta
do mar, nas sílabas do mundo.

Maria João Cantinho, Sílabas de Água, 2005.

http://www.triplov.com/poesia/cantinho/

Conceição Lima: palmo a palmo, uma senda necessária

São Tomé- fotografia de Patrícia Maia

Residência

Visão de meu pai de volta à casa de
sua mãe, sam Nôvi, no Budo-Budo

Regressarás pela ladeira velha
sem aviso.
Será como ontem, ao entardecer:
remoto, repentino, o assobio.
E no caminho, um soluço de festa
derramado.

A luz será húmida
a chuva íntima
sobre a marca dos teus pés.
Dedo a dedo, folha a folha
tocarás os cheiros
os sortilégios do quintal -
o limoeiro anão da avó
o decrépito izaquenteiro
o ocá assombradíssimo
o kimi torto
e à entrada, no barro gravado,
o fantasma do bode branco.
O degrau há-de ranger ao primeiro passo.
Subirás devagar, concreto
sem pisar a tábua solta no soalho.
A porta está aberta, a tocha acesa.

Conceição Lima, O útero da casa, Caminho

http://www.revista.agulha.nom.br/lusofonia.html

http://www.novacultura.de/0502lima.html

http://culturastp.blogspot.com/2005/08/poesia-de-conceio-lima-em-espanhol.html

Pedro Tamen, a poesia aberta à voragem da criação

quadro de Abel Manta
http://www.pitoresco.com.br/portugal/portugal/25_abel_manta/abel_manta.htm

Edital

Dextra, a sina implica sons de vento; não nos sabe
a boca a como era dantes -vibração,
embuste ou dano. Cresce a papoila e lá isola
a força nítida, flectida, não reflexa.
Não tem dos ditos sons uma audição visível
- mas o tacto. A nós, olfacto e tempo
se misturam no cadinho imperfeito
que os dedos finos formam (dedos
ou trémulos suspiros? maçãs do rosto
ou neve?) Mais duvida a penumbra
que a escuridão dos olhos, cesto, abrigo
do mais danado não; mas é nela
que a mão dorida poisa e faz a tarde.

De nós a oito dias não a vela
rodará; agora zune.
Neste momento exacto,
Como a gaivota limpa, aqui é isto:
a cólera dos numes. O peso adulto.
O pente sobre o Tejo. E as sereias.

Aviso aos que nos cortaram as barbas:
cada um dos nossos pêlos é contado.

Pedro Tamen, Tábua das Matérias

http://www.iplb.pt/pls/diplb/!get_page?pageid=402&tpcontent=FA&idaut=1426113&idobra=&format=NP405&lang=PT
http://www.nescritas.nletras.com/poetasapaixonados/detamen/

Teixeira de Sousa: viagem interrompida

http://www.nave.cv/cvtelecom/default.asp

No Encontro da Fnac, há uns tempos atrás, em que eu e o José Luís Hopffer Almada moderávamos uma mesa de escritores cabo-verdianos, Teixeira de Sousa colocou-se na dianteira, revelando-se o "dono da circunstância": projectos sólidos de prosseguir a escrita, um claro leitmotiv para iludir o tempo que escasseava, nas muitas histórias que tinha para contar.
O seu último trabalho “Oh! Mar de Túrbidas Vagas”, foi recebido como uma herança ineludível: voltava-se, ainda e (porque não) às viagens em barcos tão sôfregos quanto indefesos, às travessias arrojadas das longitudes oceânicas, numa clara reverência a Eugénio Tavares.
Ficaram por cumprir outros "dois livros, um de cariz histórico e outro lírico".

Às vezes, uma banal e pacata travessia quotidiana interrompem o curso de uma vida, como se de um caudal tormentoso e árduo se tratasse.

http://www.asemana.cv/article.php3?id_article=13315

quarta-feira, março 01, 2006

João Vário- o que a distância interpõe e desconhece

fotografia de Marzio Marzot

E então subimos aquele grande rio
e as portas do Rodão, chamadas. Era em abril
dois dias depois da neve
e da cidade dos nevões, na serra.
E olhamos para os penhascos da beira-rio,
as oliveiras, o xisto, a cevada
as ervas de termo, e as colinas.
E, junto da via férrea, os homens do país
miravam-nos como se fossemos nós
e não eles os mortos desta terra,
homens do medo e do tempo da discórdia
que trazem para o cimo das estradas
a malícia que vai apodrecendo
seus pés neste mundo e em terras de outrém.
Que fazeis do mundo e da sua chama imponderável, os homens,
perdidos que estais, hoje como ontem,
entre a casa e o limiar?
E evocamos, mais uma vez, esse provérbio sessouto.
E, na verdade, porque regressaremos,
após tantos anos, a este tema?
Será que a morte nos ensinou
a olhar para o homem com pavoroso êxtase?

João Vário, Fragmentos


Para repôr com urgência a estrondosa ausência de um Camões para Cabo Verde, leia-se e releia-se, o que o país produz em termos literários (e não só). Ver a este propósito, o comentário de F. José Viegas em http://origemdasespecies.blogspot.com/. E ainda http://www.aulil.blogspot.com/: ambos obrigatórios, para quem quer estar a par.

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Luís Amorim de Sousa: o verbo Trafalgar

www.londonphotos.org

O verbo Trafalgar

para o Alberto de Lacerda

"I hear continual echoes from the Thames"
Walt Whitman

não foi para isto que eu me despedi
de tanto
que tanto amava

o sítio
para começar
a caminhada de casa até ao metro
a tentar desvendar diariamente
o mistério da herbácea e do tijolo

e que janelas
e que janelas por dentro

um dia
numa vidraça
vi um papel com uns garatujos assim
I LOVE YOU RICHARD COME BACK

em frente havia uma fonte
vitoriana
municipal
sem água
comemorava uma data
que nunca fui capaz de decorar
ese ra lao a ua que e mais pfeia

degraus
uma rampazinha
e as roseiras da casa do actor
que abria a porta como se estivesse em cena

: good morning
do I detect
a little gloom in the sky?

"Então, meia-noite!"
pensava eu logo com
os meus botões

é claro que ninguém sabia nada
de versos e de poetas portugueses
e muito pouco de mi
a cirandar por ali
com pensamentos desses na cabeça
comunque
como diria
Giorgio
saudoso Giorgio

Giorgio Verrecchia
para mim
Giorgio Maggiore
esse também apareceu
assim só
só por amor

chegou com uma mochila às costas
tocou a campainha e anunciou
: vim por ti

Tessa quase nem queria acreditar
apertou-o muito muito e disse
: fica
Giorgio ficou par sempre

o que eu nunca percebi foi como Londres
teve alma para o manter fora de portas

comigo não foi assim

entrei na estação do metro
apontei o destino
e lá fui eu
a conjugar o verbo Trafalgar

Luís Amorim de Sousa, O Verbo Trafalgar, Casa da Moeda

http://www.secrel.com.br/jpoesia/lamorim.html

Nuno Júdice: as mulheres azuis do equinócio

http://www.bestiario.com.br/2.html

Vi as mulheres azuis do equinócio
voarem como pássaros cegos; e os seus corpos
sem asas afogarem-se, devagar, nos lagos
vulcânicos. Os seus lábios vomitavam o fogo
que traziam de uma infância de magma
calcinado. A água ficava negra, à sua volta;
e os ramos das plantas submersas pelas chuvas
primaveris abraçavam-nas, puxando-as num
estertor de imagens. Tapei-as com o cobertor
do verso; estendi-as na areia grossa
da margem, vendo as cobras de água fugirem
por entre os canaviais. Espreitei-lhes
o sexo por onde escorria o líquido branco
de um início. Pude dizer-lhes que as amava,
abraçando-as, como se estivessem vivas; e
ouvi um restolhar de crianças por entre
os arbustos, repetindo-me as frases com uma
entoação de riso. Onde estão essas mulheres?
Em que leito de rio dormem os seus corpos,
que os meus dedos procuram num gesto
vago de inquietação? Navego contra a corrente;
procuro a fonte, o silêncio frio de uma génese

Nuno Júdice, Encantamento

http://www.universal.pt/scripts/hlp/hlp.exe/artigo?cod=2_350

http://www.lumiarte.com/luardeoutono/nunojudice.html

domingo, fevereiro 26, 2006

Paulo Teixeira: le ceneri di Pier paolo Pasolini

(...)
Porque obsceno é tudo o que eles gostariam
de fazer mas não são capazes, continua invencível
a luz do céu nos teus olhos, e essa claridade
que há muito te distancia do mundo como
(quisessem eles) a auréola dos arcanjos.

(...) in A Região Brilhante

http://www.meet.asso.fr/livres/teixeira_por.htm

domingo, fevereiro 19, 2006

Pier Paolo Pasolini: in quei giorni la mia vita, il mio lavoro erano pieni

www.fermenti-editrice.it/
A un figlio non nato

(...) Un vechio cavallo marrone, in fondo, sull'erba umida,
un'automobile vuota, in mezzo ai cespugli,
e non lontano, qua e là, festosi echi di spari:
tutt' intorno era pieno di coppie, ragazzi e poveri.
in quei giorni la mia vita, il mio lavoro erano pieni,
nessuno squilibrio, nessuna paura mi minacciava:
ero andato avanti per anni, prima per fisica grazia,
- mitezza, salute e entusiasmo che ho avuto nascendo,
poi per una luce di pensiero, benché incerto ancora,
- amore, forza, e coscienza che ho acquistato vivendo.
Eppure, primo e unico figlio non nato, non ho dolore
che tu possa mai esser qui, in questo mondo.

Pier Paolo Pasolini, La religione del mio tempo

José Agostinho Baptista: as folhas do pensamento e algumas árvores, quase tudo acabava em ti.

http://imbricacoes.blogs.sapo.pt/
Adolescência

Plantaram uma única figueira na margem dos
teus domínios.
Anoitecia.
Os cães, os pássaros,
as folhas do pensamento e de algumas árvores,
quase tudo acabava em ti.
O sono crescia no meio dos jardins alucinados.
As conchas fechavam-se sobre as pérolas de
sangue das irmãs.
Era tão simples amar as lágrimas delas, aos pés da cruz.

A lua cheia parava em agosto e batia na
janela de um sonho puro.
Os figos caíam através do verão.
Rebelde, incendiavas esse tempo.
Ainda crescias.

José Agostinho Baptista, Agora e na hora da nossa morte

http://www.jabaptista.net/

Fernando Namora: é a vida que pergunta quando acaba

http://www.megazona.blogger.com.br/
Evidência

Poderão dizer que minto,
mas no dia em que a gente sabe
que peso era este
a pesar nos braços,
e se acorda a infância
que neles dormia,
nesse dia
começa-se a morrer
mais depressa
e a assistir à morte
em cada instante recomeçada.
a infância foge dos braços
mas o peso continua:
é a vida que pergunta
quando acaba.

Fernando Namora, Marketing
http://www.iplb.pt/

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Camões (em) boas mãos: ta muda tenpu, ta muda vontadi


Pintura de Abel Manta (1888-1982), descrevendo o largo de Camões
www.arqnet.pt

Ta muda tenpu, ta muda vontadi,
Ta muda ser, ta muda konfiansa;
Tudu mundu é fetu di mudansa,
Ta toma senpri nobus kolidadi.

Sen nunka pára nu ta odja nobidadi,
Diferenti na tudu di speransa;
Máguas di mal ta fika na lenbransa,
Y di ben, si izisti algun, ta fika sodadi.

Tenpu ta kubri txon di berdi manta,
Ki di nébi friu dja steve kubertu,
Y, na mi, ta bira txoru u-ki n kantaba

Ku dosura. Y, trandu es muda sen konta,
Otu mudansa ta kontise ku más spantu,
Ki dja ka ta mudadu sima kustumaba.

Luís de Camões,tradução para cabo-verdiano de José Luís Tavares

http://aulil.blogspot.com/2005/08/joo-vrio.html

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Adélia Prado: minha tristeza não tem pedigree

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Adélia Prado, Com licença poética
http://www.releituras.com/aprado_bio.asp



Eduardo (Guerra Carneiro) : afinal, acabo sempre por falar de ti

Aqui de novo estou, cantiga, neste
lugar de eleição onde retomo a escrita.
É um vagar premeditado, no regresso ao corpo,
em demorado gosto de bebida dupla. Reparo: a carga
das palavras, canga difícil para quem
deste modo quer fazer o mosto. A poesia
já regressa, por entre cortinados e veludos
e o quarto, a sala, os corredores, o vão
da escada, ressoam com os seus passos,
afinal tão leves - a neve no soalho,
difícil no silêncio. Dizia do regresso; assim
desfaço os nós do medo: floresta e engano,
areal distante. Sorris e tudo é novo.
Sim: acabo sempre por falar de ti.

Eduardo Guerra Carneiro, Contra a corrente

http://www.eduardopitta.com/bibliografia.html

domingo, fevereiro 05, 2006

Armando Baptista-Bastos: os retratos são feitos para eliminar o tempo

http://www.warhols.com/fashion.html
Pouco de minha mãe me lembro. Ocasionalmente, sabes?., examino o retrato oval, olho-a nos olhos, com ela converso, penso no colar de pérolas artificiais que traz ao pescoço, que foi feito do colar?, as coisas perdem-se assim?, os objectos de estimação desapareceem como?, fazem-se em pó?; nada se perde, tudo se transforma?; observo minucioso o nariz direito e equilibrado, as maçãs do rosto, os retoques subtis que o fotógrafo executou, o esfumado cinzento por detrás. Como seriam as suas mãos? (...) Os retratos são momentos fixados que se perdem nos próprios momentos. Os retratos são feitos e conservados para imaginarmos uma certa contagem do tempo. São feitos para eliminar o tempo, não para o conter. Porque nenhum retrato contém o movimento ondulante das mãos, o som das vozes, o testemunho de uma intrusão, a revelação do amor.Os retratos são a extensão do que imaginar se possa. Posso observar um retrato e dar-lhe a dimensão que pretender: os retratos são alvitres para inventarmos o mais imutável dos corpos e regularmos o mais enigmático dos hábitos. Os seus limites só então são transponíveis. Isto quer dizer que o retrato de minha mãe nada me diz de minha mãe; a não ser que a invente, como a ti eu te inventei. (...) Volto ao retrato; volto ao retrato porque, há tempos, comecei a pensar que muitos dos meus tormentos e apoquentações provinham da circunstância de passarem anos e anos se, ao menos uma vez, eu ter fixado o retrato de minha mãe, falar-lhe, tentar reconhecer os sinais ocultos, a natureza secreta daquele olhar, o religioso distanciamento em que aparece envolvida. Tê-la, enfim. E associar, de modo instintivo, a ideia de que lhe pertenço, pertencendo-me a ela.

Baptista-Bastos, Um homem parado no inverno

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

a guerra das estrelas

(...) Vejo-o, diante dos senhores da decisão, que não lhe viam as mãos grandes nem as suas razões, as razões dos dois lados, que agora porém, bem sabemos que podem coexistir.
Oh! se podem coexistir, dentro de nós mesmíssimos, os indecisos do partir ou de ficar, os virtuosos a favor e contra a guerra colonial, os fundadores de uma escola inteira que se arrastava pelas praças e cafés, como um exército de folga, ou uma nobreza desocupada que se diferenciava pela ternura com que falava dos seus súbditos, a devanear por entre os muros, entremeados de filmes checos que ninguém compreendia mas tinha que explicar, (...) e então ver-se-ia quanta gente ia de falsete à ópera, para ser visto no fim da missa, para estender o bóné, a ponta da saia, lançando um olhar de soslaio, entendedor, conivente e promissor de novas óperas. (...)

maria armandina maia, dedicadamente sua, 2001

terça-feira, janeiro 10, 2006

"A claridade duma luz" de Fernando Echevarria: ainda e sempre a luz que nos diz

São Tomé e Príncipe, fotografia de Patricia maia

A claridade duma luz por trás
disto aqui que aparece claridade.
E até parece mais
luz de animal. De arrabalde
do seu ímpeto fundo. Que se abstrai
e fica vindo, nem sequer se sabe
de que outro mundo. Mas de um mundo a dar
para a consciência de ninguém que se abre.

Fernando Echevarría, Introdução à Poesia