terça-feira, março 14, 2006

como se tudo fosse princípio

Lembro-me bem da menina vestida de anjo, no corpinho coberto do tecido acetinado, envolvida em plumas esvoaçantes, com uma coroazinha na cabeça que a fazia sentir a aura dos dias nobres.
Conto vezes sem conta como chorava ao ter de deixar a roupa de anjo para ser uma menina igual às outras. Conto com pormenores de rigor que vou inventando, a segurar aquele pedaço de infância traída pela pressa da vida ou pela vida de pressa que encurtou a família não muito depois do anjo ter despido as vestes.
Conto-a e reconto-a, ouço-a contar – coisa rara nos meus ouvidos pobres de recordações – e dou corda a esta menina que dentro levava o vento e aragem, num baile que ninguém via, (só os anjos) mas que faziam os seus pés pisar as pedras como se aquele fosse o caminho da luz.

Como se tudo fosse princípio.
Maria Armandina Maia










1 comentário:

maria joao martins disse...

Muitos Parabéns! pelo aniversário, pela vida, pelo texto maravilhoso.
Beijo enorme.