sábado, março 18, 2006

Sobre os lugares interiores de cada um

António Ferra 2006

Esqueci-me do linho que queria ainda estrear, tirar da gaveta as toalhas e lençóis, e deitar-me neles, lavados, frescos, para depois os amarrotar de abraços e beijos.
Esperava o sol, que durou pouco. Mas espero sempre o sol. Vou esperá-lo até ao fim dos meus dias.

Mas o pó “é lixado”, como dizem os teus versos, que eu não consigo trazer ao de cima porque ainda não te conheço. Só sei que te gosto e te trato bem nos meus intervalos de grandes solidões, à espera que as grades se fechem que os serãos sejam mais bonitos, que os jardins me pertençam.

Trouxe flores comigo e o meu mundo, imperfeito, incandescente, mas vivo e cruamente honesto. Pus-me toda numa bandeja, como se mudasse de país. Vim para ti, a esquecer as dores e a dor, imensa, imensa.

Mas fecharam-nos as portas do jardim secreto e, quando o regas, lembras-me, infalivelmente, que devia ter sido eu a regá-lo. Eu, que amo os jardins na rua, eu que pensei que não havia nada de mal em passear nos jardins: aqui das redondezas, ou outros, os que nos levam a cruzar pessoas e a inventar-lhes a vida.

Cada um tem o seu quarto de trabalho interior. O meu está, em grande parte, nos corpos e nas vozes de quem cruza o meu caminho. Não deixes, por isso, de regar os jardins.

Armandina Maia

1 comentário:

Roteia disse...

Vejo a casa, pela primeira vez, com a luz-de-presença, discreta como deve. A luz permanecerá ligada noite e dia, mesmo quando o sol entra pela janela para acariciar a quietude do meu gato. Mas à noite, como se fora luar, o meu felino de barriga cheia precisa desta luz que lhe atiça o dever da caça.
E há coisas que só entendemos como animais. Porque de pessoas apessoadas está o nosso inferno cheio.