domingo, setembro 17, 2006

a imagem na retina

Photobucket - Video and Image Hosting

A imagem na retina
para a minha filha Patrícia

Às vezes, quando a olhava, assim, impiamente pura, tinha medo que nunca mais crescesse ou não se soubesse soltar da fantasia. Mas tudo parecia brotar à sua volta como se ela falasse com as flores e estas crescessem, milagrosamente.
As noites eternas em que a esperava sem lhe conhecer o rasto, com o ouvido à escuta, à espera do desligar do motor do carro, da vespa, da chave na fechadura, dos passinhos em bicos de pés para não a acordar, foram-se afastando de si.
Outros espaços, próprios, a albergavam, sem drama nem lágrimas, mas com uma brutal sensação de algo de irreversível. Como o cordão, mais uma vez.
Mas, sabendo, como sabia, que estes são os caminhos da vida, nada mais fazia do que segui-la com o olhar, de longe, cada vez mais longe, até ela ficar tão pequenina que lhe cabia na retina, onde sempre a acompanhava, onde quer que fosse.
Deu consigo, muitas vezes, a contar coisas desconhecidas a gente desconhecida, desta filha que, muito provavelmente, lhe dava colo, mesmo no meio das lágrimas e discussões, mesmo quando tudo parecia sem retorno no horizonte.

As partidas deixavam-nas devastadas, como se um vulcão tivesse varrido para sempre os mimos, os bilhetes sem fim, as surpresas, as esperas, as insónias, os dias e noites em que maldisse a sua vida, com aquela filha da aventura e do desassossego, que lia sem parar e sem norte, chorava um mar de lágrimas brandas pelos amigos que deixava para trás e desafiava a vida com um prazer renovado, que parecia perpétuo.
Sabia já muito menos do seu rumo: contentava-se com o tempo de mãe de filha adulta. Sentia-lhe a falta, mas não queria ofender a sua nova integridade. Sabia que o seu tempo tinha passado. Como também sabia que a esperaria eternamente, mesmo eternamente.
O seu coração mantinha intacto o fio do primeiro dia. Por isso, guardava tudo o que lhe pertencia e acariciava-a na alma, por dentro, onde ninguém via. Continuava a conhecer-lhe a voz e a adivinhar-lhe a tristeza. E sonhava com felicidade dela como um bilhete de lotaria.
Por isso a esperava eternamente, para voltar a abraçá-la e se fazer perdoar pelo tempo que sobrevivera longe dela e do seu colo quente de filha.
Para sempre.

armandina maia, um modo de dizer "parabéns", a 16-09-2006.

domingo, agosto 27, 2006

quando a paisagem é um deus que arde

www.artistanet.com.br/

A paisagem dissolvia-se num imenso abate de árvores. A terra queimada, terra batida agora, quase aliviava os corações dos que tinham hesitado em deixá-las, as terras, as casas, os animais, tudo o que antes, ainda há pouco, fora a sua morada. Às vezes desde o berço. Às vezes era aquele, só, o mar, a terra e o ar que tinham por mundo.
Custava ver soltar-se aquele fio que os prendia à vida, desatar-se, sem um nó sequer de resguardo. De repente, tudo se perde e se espalha, solto, avulso: E eles a lutar pela vida, como animais de sobrevivência que são, afinal.

Noutras paragens, gente quase nómada, tão diferente e tão igual, pede refúgio, aos milhares, a abandonar casas também queimadas por guerras de senhores que, às vezes, nem sabem bem o que lá foram fazer, perdidos em agendas de escala internacional, entre um e outro vôo.
A contrastar com as formalidades “da ajuda”, sente-se a frieza dos homens que desenham discursos sobre a dança de morte das pessoas, e até dão acenos de salão de baile, com direito a improviso de piano, enquanto se preparam para os apertos de mão em que se derretem as possibilidades de travar seja que batalha for.

Onde estarão, agora, os animais feridos, perdidos, os cães de guarda que dormiam a sono solto à porta das moradas dos donos?
Quando cairão de vez os cavalos queimados, a vaguear sobre o chão de fogo, de olhos mortos e cegos, que se atravessavam à frente da câmara do repórter, a arder de dor, de cegueira e de perda?

Ainda altos e esguios, ainda superiores no seu modo brando de mover a cabeça devagar, como esperassem a mão amiga do dono, a sussurrar-lhes palavras de conforto e amparo. Ainda o palpitar de um coração agora em chamas, mas já árvores abatidas, como tudo em volta, sem vida, sem norte, sem morte sequer?


Armandina Maia, Moledo/Cerveira, Agosto de 2006.

quarta-feira, agosto 16, 2006

como se nada ali tivesse existido

Photobucket - Video and Image Hosting
zacariasdamata.com/fotos/0028.jpg

Como se nada ali tivesse existido.

A praia assim não tem aquele ar violento que lhe dá o mar cavado, a pique, com aquela montanhas de pessoas a gritar perante a investida das ondas.
A praia desta hora tem uma faixa extensa, seca, longa e larga, onde se desenrolam cenas familiares que, de tão ternas, apetece reter para sempre: o pai e o filho adolescente que marcam com os pés na areia molhada o seu campo, o terreiro com baliza e tudo. A fila de velhotas que esperam, com uma espécie de túnica meio-levantada, a chegada do mar que lhes há-de molhar os pés e os ossos desarticulados e doridos. Os putos do surf, ainda no princípio, que só de vez em quando se conseguem erguer sobre a prancha, de onde lhes parece que o mundo é deles, apesar de saberem do perigo que os ronda, com o mar a arrastar as pranchas para longe, cada vez mais longe e com mais força.
E as meninas, curiosamente mais as meninas, a construir afincadamente castelos na areia, com pontes e ameias, passagens subterrâneas que o mar de vez em quando visita, derrubando parte do edifício, perante o desespero dos construtores. A engenharia é cuidada pelos pais, embalados pelo sonho de criança, e agora pelo das crianças que são seus filhos, aplicando-se todos na obra que o mar há-de varrer, numa pazada de água seguida de umas quantas, até alisar a areia, como se nada ali tivesse existido.
Do cenário, ficam só os sons de alegria dos meninos, a saltar dentro do castelo imaginário, gritos que nos trespassam a indiferença com que nos deitamos na areia, alheios a tudo.

Longe dali, neste mesmo planeta, outras crianças gritam perdidas, a sentirem a vida fugir, os pais a desaparecer por entre sulcos que o chão abre. Os (tele)jornais delas darão as notícias necessárias, em números todos os dias acrescentados, entre os civis que os senhores da guerra matam para acertarem num alvo que nem sequer sabemos se existe.
Se calhar é só um castelo como os de areia, que os seus olhos cobertos pela cegueira e sede de poder, tranformam em império. Um deserto de refugiados, um deserto de morte e de terror é o seu espólio, destes guerreiros apátridas que já não se lembram de uma razão para estar ali.
Aqui, como na areia dos castelos românticos, tudo irá ruir, a esperança, a dor, a esperança sobretudo e a vida não se renovará como por encanto. Como se nada ali tivesse existido.

armandina maia
moledo do minho, agosto 2006

sábado, julho 22, 2006

férias: forget me not!



Vou de férias até 15 de agosto, se aguentar, porque o meu corpo desabituou-se destes carinhos.
Não se esqueçam de regar as plantas e falar com os pássaros ou outros animais que habitem a vossa casa ou, simplesmente, a berma das ruas solitárias.
abraços

armandina


De quatro paredes restaram as pedras (...) vento e silêncio as atravessam e nelas não dura a memória

Photobucket - Video and Image Hosting


Pátria

Um caminho de areia solta conduzindo a parte
nenhuma. As árvores chamavam-se casuarina,
eucalipto, chanfuta. Plácidos os rios também
tinham nomes por que era costume designá-los.
Tal como as aves que sobrevoavam rente o matagal

e a floresta rumo ao azul ou ao verde mais denso
e misterioso, habitado por deuses e duendes
de uma mitologia que não vem nos tomos e tratados
que a tais coisas é costume consagrar-se. Depois,
com valados, elevações e planuras, e mais rios

entrecortando a savana, e árvores e caminhos,
aldeias, vilas e cidades com homens dentro,
a paisagem estendia-se a perder de vista
até ao capricho de uma linha imaginária. A isso
chamávamos pátria. Por vezes, de algum recesso

obscuro, erguia-se um canto bárbaro e dolente,
o cristal súbito de uma gargalhada, um soluço
indizível, a lasciva surdina de corpos enlaçados.
Ou tambores de paz simulando guerra. Esta
não se terá feito anunciar por tal forma

remota e convencional. Mas o sangue adubou
a terra, estremeceu o coração das árvores
e, meus irmãos, meus inimigos morriam. Uma
só e várias línguas eram faladas e a isso,
por estranho que pareça, também chamávamos pátria.

De quatro paredes restaram as pedras. Com as folhas
de zinco e a madeira ferida dos travejamentos
perfaziam uma casa. Partes de um corpo
desmembrado, dispersas ao acaso, vento e silêncio
as atravessam e nelas não dura a memória

que em mim, residual, subsiste. Sobre escombros
deveria,
talvez, chorar pátria e infância, os mortos que
lhe precederam a morte, o primeiro e o derradeiro
amor. Quatro paredes tombadas ao acaso
e isso bastou
para que, no que era só mundo, todo o mundo
entrasse

e o polígono demarcado, conservando embora
a original configuração, fosse percorrido por
um arrepio estrangeiro, uma premonição de gelos
e inverno. Algo lhe alterara imperceptivelmente
o perfil, minado por secreta, pertinaz enfermidade.

Semelhante a qualquer outro, o lugar volvia meta
e ponto de partida, conceitos que, como a linha
imaginária,
circunscrevem, mas de todo eludem, o essencial.
Ladeado de sombras e árvores, o caminho de areia,
que se dizia conduzir a parte alguma, abria

para o mundo. A experiência reduz, porém,
a segunda à primeira das asserções: pelo mundo
se alcança parte nenhuma; se restringe ficção
e paisagem ao exíguo mas essencial: legado
de palavras, pátria é só a língua em que me digo.

Rui Knopfli, Memória Consentida, 1982

http://ciberduvidas.sapo.pt/antologia/knopfli.html

sexta-feira, julho 21, 2006

os pássaros também têm morada

Photobucket - Video and Image Hosting

Do cenário, tornado habitual aos nossos olhos alheios e domesticados, a câmara fixava um ou outro objecto, um rosto sem pertença, a "apagada e vil tristeza" de quem ali vivia.
"Destroços" é palavra pouca em sentido e perda, não cabe nela a dor dos que se tinham lançado à estrada, deixando tudo para trás, num gesto que ficará nas suas memórias, para sempre, como uma morte, que realmente (também) é, o abandono do lugar onde se mora, se cresce e até se nace, sem o poder salvar, sem agarrar nada: a cama onde se dorme, as tábuas do chão que pisamos, às vezes a vida inteira passarinhar em cima daquele chão.

O cenário, como já disse, está morto, é a morte. Sem que nada se mova, entre a desolação que se pressente e a vontade de nos afastarmos, para não ver mais, ergue-se um homem no meio da cena. Como no teatro, entra este personagem vivo.
Um homem alto e magro, comum em tudo, decidido no passo, avança e galga os destroços sem os olhar, se calhar até sem os ver. Caminha direito a um ponto fixo, de que não afasta os olhos nem os passos que o conduzem ao não-lugar.

É então que pára e segura na sua mão direita, uma caixa grande, levíssima, que ele ergue como uma pena, acima do pantanal que lhe envolve os pés. Ergue-a mais acima, ao nível do rosto e, num olhar rápido, vê se ela está intacta. Temos mesmo a impressão que pronuncia umas breves palavra aos seres que a habitam.

Depois, retoma a viagem de regresso, passo longo, decidido, como antes. Agora, porém, o seu coração está menos desabitado, com o calor dos pássaros que salvou da morte.
Nunca esqueçamos os pássaros nem as suas moradas: às vezes, é nas mãos deles que está a nossa salvação.


armandina maia

sexta-feira, julho 14, 2006

alexandre, o grande o'neill português





O Tempo sujo

Há dias que eu odeio
Como insultos a que não posso responder
Sem o perigo duma cruel intimidade
Com a mão que lança o pus
Que trabalha ao serviço da infecção

São dias que nunca deviam ter saído
Do mau tempo fixo
Que nos desafia da parede
Dias que nos insultam que nos lançam
As pedras do medo os vidros da mentira
As pequenas moedas da humilhação

Dias ou janelas sobre o charco
Que se espelha no céu
Dias do dia-a-dia
Comboios que trazem o sono a resmungar para o trabalho
O sono centenário

Mal vestido mal alimentado
Para o trabalho
A martelada na cabeça
A pequena morte maliciosa
Que na espiral das sirenes
Se esconde e assobia

Dias que passei no esgoto dos sonhos
Onde o sórdido dá as mãos ao sublime
Onde vi o necessário onde aprendi
Que só entre os homens e por eles
Vale a pena sonhar.

Alexandre O'Neill, No Reino da Dinamarca, 1958.

quinta-feira, julho 13, 2006

é belo que um rio guarde / a cor dos sacrifícios




Marlene Dietrich
Powered by Castpost


BOA MEMÓRIA

Se cortassem o Danúbio às fatias
ninguém veria uma mutilação.
A água abre-se em duas
e refaz-se maI o corte finda.
Só que o azul se tinge
do suor da lâmina.
Mas é belo que um rio guarde
a cor dos sacrifícios.


Fernando Namora, Marketing, 1969.

sexta-feira, julho 07, 2006

alfonsina

embed scr="ftp://pwp.netcabo.pt/musica%20mi/amor.mp3">ftp://pwp.netcabo.pt/musica%20mi/amor.mp3



os heróis possíveis para um país a precisar de muitos heróis para ser gente

Photobucket - Video and Image Hosting


Mercedes Soza canta Los Hermanos
Powered by Castpost


1. Eu também me grudei no televisor, primeiro a torcer o nariz, muito crítica, muito (cons)ciente dos maus dinheiros que giram por baixo das mesas nas bancas do futebol. Até escrevi o Hino, qual hino?

2. Mas, por medo de ficar excluída (hipótese pouco provável, dado o meu longo traquejo em saber o que não quero) ou por, simplesmente, querer ver Portugal subir um degrau, qualquer que fosse, em terras europeias -pois era disso que se tratava, a certo ponto - acabei por passar boa parte do tempo como qualquer mortal: à espera do jogo. O último, dizia para mim, a serenar ânimos sebastianistas e assim acaba-se a espera e a esperança. Enquanto dizia isto, a esperança crescia, como um polvo.

3. Lembrei-me do Eusébio, a chorar de raiva, um touro diante de uma grande gaiola que era o mundo para o pequeno império português de onde vínhamos. Foi há quarenta anos. e, no meio de muitas recordações que o meu cérebro apagou instantaneamente num dia fatal (que fica para depois), lembro-me com nitidez de todo o jogo, dos cantos, do milagre que, se calhar, havia na dobra da esquina.

4. O futebol daquele tempo não está fora de moda. Foi o futebol do nosso tempo que se tranformou numa palavra passe com acesso permanente a jogo sujo, dinheiro, sujo, vida suja. Não são os jogadores que são assim: é o sistema, o comércio, os saldos de homens como se de bestas ainda se tratasse, os heróis que se esquecem, porque a imprensa não andou de olho neles (veja-se o "tratamento" dado a Miguel, neste Campeonato", os heróis intocáveis a quem nunca se aponta o dedo, mesmo que as imagens nos devolvam falhanços claros (que claramente acontecem a todos!).

5. Persegue-me esta mania de explicar tudo: de onde vem a mística do futebol, que segredo guarda para mover montanhas?
Temos que aprender a fazer o mesmo com as causas do país: abalá-lo, sacudi-lo, reconstruí-lo, sem nunca nos deixamos iludir pelas "boas" medidas que nos hão-de tornar um grande país.

6. Portugal NÃO É um grande país. É um país que viveu acima das suas posses durante séculos, até aprender a manha de não trabalhar, do biscate, do desenrascanso, das férias entre duas pontes, na vidinha de cada um como se ninguém fosse de todos.

7. Agora temos tudo o que há na Europa, até futebol sem jogo, como se viu, com resultados previsíveis, como também se viu. Temos também banda larga, embora grande parte do país viva num mundo por onde ela não passa. E temos fornadas de desempregados, eternos formandos, que mais não é que outra maneira de escrever desemprego. E os túneis sem saída. Os ordenados de miséria, as pensões que nos deviam fazer baixar os olhos quando nos cruzamos com uma velhota pobre e triste, mas sobretudo pobre, os remediados, as contas adiadas, as insónias por causa das contas adiadas, do trabalho que não há, dos empresários que fogem pela porta grande, dos empregos comprados, com cunhas do pai que é motorista do patrão, com olhares distraídos à perna do chefe que encosta de mansinho na nossa, com florinhas frescas na secretária da mulher do cacau, como eu vi fazer, anos a fio.

8. Um dia destes ponho-me a contar a história destes futebóis, que ninguém está ver, mas que temos que saber que existem, nesta Luz de Presença, vigilante ao roubo perene da vitalidade, empenho e audácia dos portugueses.

9. Não foi a Selecção que perdeu o jogo. Foram as muitas governações desgovernadas que perderam a jogada, por não terem (ainda) conseguido criar uma imagem digna para este país que exporta há décadas o seu bem mais precioso: mão de obra barata, que aprende depressa e pinta a manta a trabalhar, competindo com os "da terra", embora sem reconhecimento, de cá nem de lá. Como disse, muito sincero, muito lábil, mas muito bem, Cristiano Ronaldo, somos um país humilde.

10. Só mesmo por milagre Portugal conseguiria, em terreiro alheio, venver/ bater as manhas, as piscadelas de olho.
Lá fora, somos não só um país humilde, mas um país que ninguém sabe muito bem onde fica, que língua fala. Uma gentinha gentil e acolhedora, é certo, mas que não sabe onde é o seu lugar. Por isso está ali a mais, à mesa de um jogo que já não lhe pertence: é dos poderosos que tecem campanhas há séculos a sonhar grandezas e a roubar as dos outros como podem.


armandina maia

quarta-feira, julho 05, 2006

epitáfio para o século XX, um século em se pisou na Lua e se morreu de fome

Turner, Burial at the sea



Leonard Cohen canta "Like a bird on a wire" de Songs from a room
Powered by Castpost

ver também aqui

Epitáfio Para o Sec. XX

1.Aqui jaz um século
onde houve
duas ou três guerras
mundiais e milhares
de outras pequenas
e igualmente bestiais.

2.Aqui jaz um século
onde se acreditou
que estar à esquerda
ou à direita
eram questões centrais.

3.Aqui jaz um século
que quase se esvaiu
na nuvem atômica.
Salvaram-no o acaso
e os pacifistas
com sua homeopática
atitude
-nux vômica.

4.Aqui jaz o século
que um muro dividiu.
Um século de concreto
armado, canceroso,
drogado, empestado,
que enfim sobreviveu
às bactérias que pariu.

5.Aqui jaz um século
que se abismou
com as estrelas
nas telas
e que o suicídio
de supernovas
contemplou.
Um século filmado
que o vento levou.

6.Aqui jaz um século
semiótico e despótico,
que se pensou dialético
e foi patético e aidético.
Um século que decretou
a morte de Deus,
a morte da história,
a morte do homem,
em que se pisou na Lua
e se morreu de fome.

7.Aqui jaz um século
que opondo classe a classe
quase se desclassificou.
Século cheio de anátemas
e antenas, sibérias e gestapos
e ideológicas safenas;
século tecnicolor
que tudo transplantou
e o branco, do negro,
a custo aproximou.

8.Aqui jaz um século
que se deitou no divã.
Século narciso & esquizo,
que não pôde computar
seus neologismos.
Século vanguardista,
marxista, guerrilheiro,
terrorista, freudiano,
proustiano, joyciano,
borges-kafkiano.
Século de utopias e
hippies que caberiam num chip.

9.Aqui jaz um século
que se chamou moderno
e olhando presunçoso
o passado e o futuro
julgou-se eterno;
século que de si
fez tanto alarde
e, no entanto,
-já vai tarde.

10. Foi duro atravessá-lo.
Muitas vezes morri, outras
quis regressar ao 18
ou 16, pular ao 21,
sair daqui
para o lugar nenhum.

11.Tende piedade de nós, ó vós
que em outros tempos
nos julgais
da confortável galáxia
em que irônico estais.
Tende piedade de nós
-modernos medievais-
tende piedade como Villon
e Brecht por minha voz
de novo imploram.
Piedade dos que viveram neste século
per seculae seculorum.

Affonso Romano de Sant'Anna

Ainda em tempo de futebol, sem esquecer o país em riscos de ser só litoral

Photobucket - Video and Image Hosting

Sem indicação de data ou autor




Chico Buarque, canta Futebol
Powered by Castpost



1. Os governantes estão desesperados com a situação portuguesa. Por isso multiplicam leis, mas continuam sem nos mostrar em que buraco se enfiaram os recursos económicos de que Portugal dispôs nos últimos anos.
2. Sócrates partiu para esta governação com uma ideia que “colhia” os frutos do desespero dos eleitores: temos todos consciência de que não podemos continuar a gastar o que não há e, o que é mais espantoso, sem proveito que se veja.
3. A questão não é nova: bastará reler algumas passagens de há dois séculos atrás, para comprendermos quanto o país precisa de uma reordenação total em todos os sectores, de uma requalificação transversal e impiedosa, de (finalmente) premiar o mérito, a competência e o rigor como um capital capaz de tecer a rota do futuro.
4. O terramoto de 1755, com a sua dimensão catastrófica, teve a vantagem de dar ainda maior espaço a um homem temível mas audacioso: Pombal não só reconstruiu o país como gizou coordenadas para um incipiente sistema educativo.
5. No amontoado de notícias avulsas que a governação diariamente emite, a ideia com que ficamos é que, passado este “aperto”, a população portuguesa poderá finalmente viver com a dignidade a que tem direito, sem aquele ar de parente pobre que sempre nos acompanha ao sermos confrontados com os outros.
6. O dinheiro acabou. Só mesmo as scuts ficaram, numa birrazita que não tira nem dá nada a ninguém. Tudo o resto voou.
A culpa é dos suspeitos do costume: uma multidão de funcionários, admitidos regular e irregularmente, que gastam o dinheiro todo dos contribuintes. Nunca, porém, ouvi um único comentário que perguntasse quem teve a ousadia de continuar a admitir tarefeiros, assessores, secretárias a triplicar, consultores, etc., etc., etc., sem primeiro se socorrer da prata da casa, dar-lhe formação continuada e criar equipas de trabalho com auditorias externas regulares.
7. O dinheiro acabou. Mas o pior de tudo é que não foi só roubado. Foi exterminado, mal gerido, desviado, esbanjado numa loucura generalizada por um grupo de gente de honestidade moral e intelectual duvidosa, de todos os quadrantes políticos.
8. O dinheiro acabou? Faça-se dinheiro. Abram-se as portas, mesmo sem saber a quem e, claro, corta-se aos pagadores da dízima: no ordenado, nos benefícios, no pouco e no muito.
9. O dinheiro acabou? Fecham-se os hospitais, as maternidades, as fábricas. E as escolas. Os prejuízos, dizem ainda os governantes, são incomportáveis.
(Mas então não se percebe que nas escolas despovoadas, nos hospitais com poucos doentes, nas maternidades sem parturientes, nas escolas despovoadas se poderia construir um sentimento de orgulho pelo investimento da governação no interior do país?)
10. Ficamos como touros enjaulados, a ver a avidez e a mediocridade tomar o lugar dos homens bons deste país, do interior e do litoral.

Do país “todo” que nós somos e que querem desmembrar como se de uma boneca de trapos se tratasse.

Maria Armandina Maia

terça-feira, junho 27, 2006

Da pintura ao futebol (passando pela net, pela street art e por tudo o que ainda não descobrimos)

Photobucket - Video and Image Hosting
Poul Hans Lange



Villa Lobos
Powered by Castpost


Em tempo de inaugurações por toda a parte (da capital, entenda-se, que do resto do país só se sabe o que sobra em espaço noticioso), e da quase mitológica ascenção do futebol à condição de CAUSA do país, não seria mal pensarmos nos lugares de cultura, os sagrados, os de sempre, os de muito poucos e as suas novas formas, diante de nós, inseguras e perenes, com sinais de evidente vitalidade, de não recear o futuro, de não esmolar o subsídio. Gente com um arsenal de talento no fundo da gaveta, no sótão da casa, que o marasmo de uma elite deixa morrer todos os dias porque só se olha a si mesma. Gente incomum, que (se) diz e (se) faz. Acomodar-se-ão um dia? não sei, mas agrada-me que existam, fazem-me sentir mais pertencente ao futuro em que me sonho para não sucumbir.

Photobucket - Video and Image Hosting



A Cultura é o diálogo da espécie humana com ela mesma e com o que a transcende. É a voz da humanidade, ao longo dos tempos, na sua máxima integridade, no confronto com o limite da sua divindade. A Cultura é o reflexo do espírito humano, no sentido da sua condição, naquilo a partir do qual nós somos o que somos até onde os seus contornos nos instalam. São as nossas constatações das nossas limitações e os nossos gritos de revolta contra essas limitações. Por isso a Cultura é tão importante, porque eleva o Homem ao máximo de si. E também por isso a Cultura nunca morrerá, enquanto houver homens haverá Cultura, porque ela é os homens, é, pelo menos, o que resta deles no fim, o que lhes sobra, o seu saldo.

João Moita (autor do blog "Escrito a sangue" e leitor deste blog)


A palavra “cultura” continua a representar um mundo do qual os cidadãos se sentem excluídos.
O desafio que se coloca neste momento é fazer da cultura um “campo aberto” a manifestações de todas as vertentes, de diferentes faixas etárias de diferentes classes e etnias.
“A cultura é de todos” terá que deixar o lugar do slogan para se tornar uma prática real e eficaz, capaz de incentivar e deixar que se gerem novos talentos, novas dinâmicas, novas competências.
numa palavra Cultura representa mais do que tudo, o fim do preconceito.

Armandina Maia


O que é a cultura? Eu respondo olhando esta escultura que está num dos lados da Catedral de S. Marcos. Nada do que ela representa existe, a não ser o doge ajoelhado. Existe? Não existe nenhum doge que se tenha ajoelhado diante de um leão. Não há na terra nenhum leão alado, com face humana, segurando um livro. O leão olha para a cidade, para o mar, o doge para o leão. Tudo é símbolo, sobre símbolo, sobre símbolo. O leão representa, como se sabe, uma abstracção: a república. A primeira palavra do livro é outra abstracção, mais desejada do que tudo, “Pax”. O doge ajoelha-se perante abstracções: o poder está no leão e não no doge, o leão fala-lhe de paz e mostra o livro aberto ao povo, que não se vê, mas vê. É isto a cultura: uma invenção da imaginação humana, contra natura, contra o terror, contra o caos, por uma ordem superior feita de um teatro de convenções simbólicas que nos protegem, e que são a civilização. Tudo muito frágil, tudo construído, tudo inventado, tudo quase no limiar de nada. O doge pode pôr-se a pé e matar o leão, ou o leão comer o doge, o livro cair para a populaça o destruir, a primeira palavra pode não ser “Pax”, mas guerra. A cultura é uma frágil defesa, mas existe. Está ali, em pedra, símbolo de obediência do homem a convenções abstractas que ele criou e que só existem quando há vontade que existam. Nada depende mais da vontade do que a cultura e a civilização. Somos nós que as fazemos, somos nós que as desfazemos.

Pacheco Pereira in Abrupto

quarta-feira, junho 21, 2006

Quando a minha avó me visitava fazia-se uma pausa no tempo

Photobucket - Video and Image Hosting





La casita blanca cantada por Juan Manuel Serrat
Powered by Castpost



A minha avó nunca teve tempo para se sentar e olhar o rio. O tempo passara por ela muito depressa, tornara-a mais baixa, cheia de rugas, osso, mágoas e apreensão.
A minha mãe morrera, eu vivia com o meu pai, na Bica, e a minha avó andava sempre atrás de mim, perguntando-me, desassossegada, se eu comia bem: fruta, leite, bifes.
Quando desci a colina da Ajuda e me instalei naquele bairro, a meio da cidade, após uma soturna viagem de carro eléctrico, o meu pai prendeu a minha mão na sua e foi dizendo: «Gosto muito de ti. E, agora, tenho de gostar de ti duas vezes: por mim e pela tua mãe». Começámos a viver numa parte de casa. O meu pai trabalhava de noite, dormia de dia, e eu dependurava-me nos elevadores, a ocultas do revisor da Carris. Se me visse naquele propósito, dava-me com o alicate nos dedos.
Os elevadores iam do Calhariz a São Paulo. Belos nomes.
Quando a minha avó me visitava fazia-se uma pausa no tempo. Ela sentava-se no degrau da soleira da porta e contava-me as ocorrências no bairro onde nascêramos. Olhava-a com desvelo e à beleza do seu rosto majestoso, comparável ao busto de uma estátua.
O virar dos anos fez-me pensar como é que ela mantivera o porte e a teimosia da esperança, numa casa e numa família onde se chorava demasiado.
Ao despedir-se enfiou a mão na bolsa colocada por detrás do avental e deu-me umas moedas.«Come bolas de Berlim, dão grande sustentação ao corpo». A bolsa tinha a forma de um oito, com a base mais larga, e três compartimentos: para as notas, para as moedas de prata e para as de cobre. A minha avó era dona de um bom par de mãos arcaicas. Fizera renda, trabalhara numa fábrica de merino e, agora, vendia peixe. A bolsa era um artefacto de pequenos quadrados de flanelas coloridas e sobrepostas, e exalava um discreto cheiro a peixe.
A minha avó gostava de passar a mão direita, como uma carícia, na zona do avental sob a qual estava a bolsa. Dizia que o dinheiro jamais se acabaria, porque se sentia reconfortado e grato com os afagos.
A verdade é que a bolsa nunca esteve vazia para quem, na família, de auxílio precisasse.
Era uma avó que nunca procurara, na leitura, desvendar os mistérios do mundo. Aliás, lia com extrema dificuldade. Para ela, o maior de todos os poetas era João Linhares Barbosa, parente afastado, letrista de fados que falavam de sardinheiras, de amores vadios, de mulheres fatais e de ruinosas amizades.
A glória estremecida de Linhares Barbosa devia-se à circunstância de haver escrito alguns fados para Amália. Quando se cruzava com a minha avó, tirava o chapéu, num gesto ameno e circunspecto. «Um homem de grande respeito. Até vai a todos os enterros».
O Beco do Xadrez, junto ao Largo da Paz, já não existe. Um pedaço de terra entre lágrimas, e só se chegava lá com conhecimento de causa. A minha avó viveu ali uma abundância de anos. Uma casa térrea, duas divisões, uma talha com água sobre a qual permanecia um pano enorme, molhado, para manter a frescura. Acendia o candeeiro a petróleo, sentava-se à beira da cama e meditava nessa dor humilde e secreta que apenas o silêncio entende.
Nunca descortinei porque motivo uma mulher tão atropelada pela vida, tão marcada de padecimento, era conhecida pela Maria Palhaça. Entre nós, a Avó Palhaça.
A Avó Palhaça que sobrevivera a mortes, a desempregos, a afrontas infinitas sem o mais breve queixume ou a mais ligeira imprecação. A Avó Palhaça, canastra à cabeça, a subir o Aterro, pequena de tamanho, grandiosa na sua luminosa humanidade.
A Avó Palhaça, que tinha uma bolsa inesgotável, feita de lindos retalhos coloridos.
A minha avó da Ajuda.


Baptista-Bastos

domingo, junho 18, 2006

a casa sem avó: abrem-se os diques da tristeza adiada

Photobucket - Video and Image Hosting
Ulysses deriding Polyphemus - Homer's Odyssey 1829



Ina-Lou, Tata-Hateke Ba Dok A viagem dos sons, Timor
Powered by Castpost


Lembro-me agora de todos os teus gestos, o olhar sobre os muitos netos espalhados pela casa, comendo pão com doce de tomate, explorando os mosaicos da varanda, debruçados da janela para a rua com poucos carros. Éramos todos tão pequenos e tu tão lúcida, a avó em cujo colo cabíamos todos à vez, a avó fustigada pela vida mas sempre generosa, de braços abertos, infinitamente terna. Havia um cheiro naquela casa que não encontrei em mais lado nenhum: um cheiro de quartos na penumbra e mobiliário escuro, de décadas atravessadas com esforço e entrega absoluta aos outros. Lembro-me agora das coisas mais insignificantes: um sofá cor-de-laranja que refulgia sob o sol da tarde, o quadro que representava um barco perdido na tormenta em alto mar, um banco de madeira na cozinha, conversas de adultos que eu não percebia. E a bondade da minha avó confundido-se com a casa, emanando das paredes como matéria luminosa, beijos e abraços e afagos, enquanto o Alentejo entrava pelas janelas, já tão perto de Lisboa.
Agora essa casa há muito desabitada ficou ainda mais distante, ilha que só a memória resgata. Morreu a última avó, a avó que a doença foi tornando ausente, numa espécie de morte antes da morte, num afastamento progressivo, lento e cruel. Algures um fio partiu-se, fechando a história de uma geração, enquanto se abrem os diques da tristeza adiada. Lembro-me agora de todos os teus gestos, avó. Vejo-te atravessando a escuridão da infância, belíssima. E apaziguas-me, novamente, nestas horas de despedida e melancolia.


José Mário Silva

(d)a humanidade sem agá ou uma teoria para os macacos de imitação

Photobucket - Video and Image Hosting
Poul Hans Lange

Este post andou a moer-me a cabeça dias e dias, desde que li uma esclarecedora entrevista desta autora no D.N Artes. Para não guardar só para mim a "iluminação", deixo-vos, ipsis verbis, um excerto do seu conteúdo. Neste pequeno excerto ficámos a saber:
1) que ninguém definiu o light (talvez seja por não valer a pena, mas atrevo-me a sugerir que será uma espécie de estilo em que o autor tenta desesperadamente imitar os escritores, falhando redondamente quer nas palavras quer na sua intenção, isto para não falar da técnica narrativa);
2) que a autora escreve pop. (note-se que é pop sem itálico);
3) que foi a autora, literalmente, a salvar o mercado livreiro da morte certa "agonizante" (obrigada, Margarida, e eu sem saber nada disto!);
4) o livro passou a ser um bem quase de primeira necessidade (também não sabia -as coisas que eu não sei- mas imagino que a frase significa que os leitores de M.R. P. compram os seus livros juntamente com o leite, os ovos, o arroz e os iogurtes. O que fazem depois com eles, não fiquei a saber);
5) que toda a gente começou a escrever a seguir à autora, o que lhe estragou o "negócio" de primeira necessidade. Esta musa inspiradora deu lugar ao aparecimento de margaridos e margaridinhas, verdadeiros "macacos de imitação" sem rei nem roque;
6) que o "que vai ficar" é completamente diferente. (Estou de acordo. Inteiramente, ainda esta semana passei os olhos pelo Machado de Assis e percebi que tinha vindo para ficar, assim como o Shakespeare ou o Camões, que já cá andam há quase 500 anos, duraram mais do que os Descobrimentos);
7) que " pessoas acham que escrever é fácil, mas há jeito, talento e génio" (a regra, em geral é impiedosa: o jeito -para o negócio entenda-se- tem prazo de validade e liga-se intimamente à carinha laroca das "autoras") . O talento e o génio são perfeitos sacrilégios que só alguns "malditos" trazem com eles, como uma scarlett letter, porque são mesmo diferentes dos humanos que se escrevem com agá.
Depois da música, leia-se A autora vista pela sua própria lente


Jorge Rocha canta serás a nº 1, Eu só preciso dum minuto
Powered by Castpost
"Escrevo como posso e não como quero"
O light nunca foi bem definido por ninguém, além de que conside­ro que escrevo pop.
Quando apare­ci o mercado livreiro era o oposto do actual, emperrado e agonizante, no entretanto o livro mudou de estatu­to na vida das pessoas, passou a ser um bem quase de primeira necessi­dade.
O problema é que a seguir a mim todos começaram a escrever ­há 15 anos as mulheres queriam ser decoradoras, e há 30 hospedeiras ­e isso subverteu o mercado.
Assisti­mos a esse fenómeno de multiplica­ção de margaridos e margaridinhas, mas o que vai ficar é completamen­te diferente. Foi importante para os leitores ter acesso a coisas diferen­tes, mas perverso para o mercado li­terário, que passou de um extremo – só o que é hermético era bom - pa­ra um tratamento excessivamente comercial do livro.
As pessoas acham que escrever livros é uma coisa muito fácil, mas há jeito, ta­lento e génio.
Margarida Rebelo Pinto

quarta-feira, junho 14, 2006

Eugénio de Andrade, sonharmos a nossa própria (des)umanidade



Maurizio Pollini executa ao piano Robert Schumann
Powered by Castpost


Guardei para este post a homenagem a Eugénio de Andrade em Milão de que falei vagamente aqui, onde se ouviram, a par de algumas das vozes mais autorizadas na matéria, teses jovens e inovadoras sobre a obra do poeta.
A maior parte das vezes, ao fim de um calvário de trabalhos forçados que é a preparação de um Congresso, os lucros são magros e fica-se pelo blá, blá, que nada recria e muito menos transforma.
Não foi assim em Milão: as novas vozes foram escutadas com a autoridade que realmente detêm: está nelas o maior investimento, na investigação ou onde quer que seja. Foi com essa ciência que se concertaram afinidades em diferentes línguas e abordagens interdisciplinares, as mais importantes para manter vivo o sangue que corre nas veias dos criadores.
Eugénio de Andrade teria certamente amado ser visto, lido e dito daquela maneira, tão próxima do seu reduto: homens e mulheres a tentar casar-se com a respiração do poeta. Livres do seu ombro tutelar, soltaram as amarras e falaram de um grande poeta, revisto à luz do dia, em pleno sol, com a liberdade que a morte sempre traz.
Deixo-vos aqui algumas frases, escolhidas pelos seus autores, que pretendem ilustrar este postal escrito em Milão, para eugénio, com carimbo postal intercidades.


Nei versi degli altri

Contro la sacralità intangibile della parola montaliana, fuori della quale non c’è nulla e di nulla c’è bisogno, la traduzione di Eugénio de Andrade realizza quell’indispensabile atto di profanazione, che è l’unico modo per vincere l’impossibilità della traduzione poetica. (…) Come ricorda Giorgio Agamben nel suo Elogio della profanazione, ogni profanazione restituisce al libero uso e al commercio degli uomini ciò che era consacrato solo agli dei e, cosa ha fatto Eugénio de Andrade se non “tomar posesión de la poesía de Safo” (ma potremmo dire anche di quella di Montale, García Lorca, Yannis Ritsos, Enzensberger, etc.) “y, de paso, legarla a la poesía en lengua portuguesa? Così facendo, ha certamente commesso un gestio empio e sacrilego, ma i traduttori a qualcosa dovranno pure la loro pessima fama.
Giorgio de Marchis

Un ponte fra Oriente e Occidente
O Oriente sempre me fascinou. O que lhe (refere-se aos chineses) sai das mãos trabalhado em abundâcia de espírito - cerâmica, palha, bambu, comida, caligrafia, pintura, papel, poesia, tecido, pedra, música - tudo revela um saber delicado, subtil, superior.

Michela Graziani

Lume e gatos
A figura do gato tem servido para construir uma reflexão metapoética sobre questões de identidade. O olhar dos gatos, e a reflexão do olhar do sujeito poético no lume dos olhos dos gatos, é uma imagem complexa do intercâmbio entre um Eu e um Outro, de Baudelaire a Eugénio de Andrade, que nos alerta, num seu texto autobiográfico: “Ao fundo de cada uma destas linhas espreita um gato”.


Paulo Medeiros

La poesia nella voce del poeta
Em cada verso de Eugénio transpira o valor e o preço que o autor pagou em nome da poesia. Da sua poesia. E talvez aqui se encontre a questão fundamental sobre este clássico na modernidade europeia: a literatura vale uma vida? E a vida vale a literatura? Serão perguntas de interminável resposta. Mas em Eugénio, ambas se reunem, poesia e vida, numa celebração adâmica e vital, prolongando-se para lá do tempo. Se a poesia se afigura como um sonho feito na presença da razão, Eugénio de Andrade soube legar-nos esta capacidade única de sonharmos a nossa própria humanidade.

Maria Bochichio

Il giorno in cui Eugénio de Andrade connobe Cesare Pavese

O meu objectivo ao dar exemplos de poemas pavesianos imaginariamente inspirados em versos de Eugénio de Andrade foi o de "trocar a rosa", ou seja fazer um percurso de leitura ao contrário: a exemplo do Pierre Menarde Borges, tentei encontrar na poesia de Pavese que obviamente não conheceu a de Eugenio de Andrade, influências deste. Tentei assim estabelecer alguns pontos de contacto entre a poesia destes dois grandes vultos da poesia europeia para mais uma vez comprovar o que já se sabe:que a poesia é universal, e subsistindo no tempo, permite todos os percursos possíveis, cabendo ao leitor estabelecer afinidades electivas entre os poetas de que gosta mais.

António Fournier


sábado, junho 10, 2006

Timor, uma independência (?) a lembrar neste nosso 10 de Junho, em que "deus é o piloto do infinito"




Massi Olarinda, Tata-Hateke Ba Dok A viagem dos sons, Timor
Powered by Castpost



Em mim, a guerra
Divide os continentes.
O laço oceânico, que embora nos unia,
Cortaram-no.
Restam duas flâmulas, que a pouco
Desfalecem, sumidas
E pouco flutuam
Nos abismos nocturnos.
É tempo de ir em busca de outros mundos,
Movido pelo império que em mim se usa;
Capitão da minha escuna,
As vozes de coragem comandam
Em todos que em mim se escutam e confiam.


Decidimos os destinos
Ausentes de emoção;
O sangue derramado que nos guia,
O nosso sangue!
É ele que em nós resgata a divindade.


Olhai, vós, desgraçados,
Mercenários do presente!
É ainda a dor esmagada que vos prende
Que em nós torna daudável a loucura.


Tão certos rasgamos a onda que nos leva,
Nós, os deserdados das histórias de crianças,
Erguidos à Vida!
Tão sérios os rostos nas vésperas do sonho...
Tão sérios os rostos.
Só Deus nos faria regressar... Ah!
Mas Deus é o piloto do infinito.


Vinde, pois, irmãos de um outro sangue
—Amigos, chegados sem prévio aviso ou súplica
—Vinde!
É tempo de sermos nós os mandatários,
Colonos da Terra infecundada.


Ruy Cinatti


Ler mais através deste lugar.

quinta-feira, junho 08, 2006

Paulo Sarmento: Sede sedentos. Fazei-vos mendigos de tudo.

Picasso, Pobres al borde del mar (1903)




Victor Gama, Pangeia
Powered by Castpost



AS INSCRIÇÕES NO CAJADO

Não compreis pão para o caminho (pelos deuses da vossa vida, não o façais!), que será a fome a conduzir-vos.

Caminhai descalços, como os cegos: vede pelos olhos dos vagabundos.

Não profirais a palavra, qualquer palavra;silenciai o pensamento (pelos deuses da vossa vida, silenciai o pensamento!).

Não sejam ultrapassados os vagabundos, para que não os
percais.

Deixai crescer viçosa a morte, como seara ressequida (pelos deuses da vossa vida), deixai crescer viçosa a morte. Ampliai-vos em desolação.
Abri-vos ao vento suão, com narinas de dromedário.


Sede desertos. Fazei-vos mendigos de tudo.


Paulo Sarmento
, As ruas de saibro estão vazias
(Leitor deste blog e escritor)



quinta-feira, junho 01, 2006

Educação em Portugal: os cavalos também se abatem

Photobucket - Video and Image Hosting
Max Pechstein, O mercado de cavalos em Moritzburg


José Afonso, Epígrafe para a arte de furtar
Powered by Castpost


Os cavalos também se abatem


1. Há tempos chamaram-nos “os suspeitos do costume”. E assim temos sido tratados. Com pouco respeito, com muita arrogância, com mensagens subliminares de absentismo e pouco trabalho.
Mas nós, os profissionais da Educação, somos estranhos “suspeitos”: queremos condições para actualizar os nossos conhecimentos, discutir estratégias, reformular materiais e abordagens, capazes de enfrentar, sem baixar a fasquia da exigência, os novos públicos chegados à Escola. Todos somos precisos para tentar construir uma Escola de sucesso (convém não esquecer o papel dos sindicatos, apáticos, alheios e ausentes numa discussão sobre a dignificação da Carreira Docente que passa, inevitavelmente, pela avaliação dos mesmos, como pela criação de condições dignas para o exercício das suas funções).

2. Para os “inquilinos” do M. E. (utilizo a expresão de Fátima Bonifácio), este, como todos os que o antecederam, professores e alunos são meros números, que têm que obedecer às metas europeias, como bem têm demonstrado os discursos oficiais.
Para que servem a introdução do inglês, o reforço da matemática, o prolongamento da escolaridade obrigatória, as tecnologias? Para falarmos “europeu” e ficarmos bem no retrato de família.

3. Nestas medidas, mais uma vez, não se vislumbra uma política de ensino que fundamente a necessidade de elevar a fasquia da informação e do conhecimento. Por ignorância e leviandade, os vários Ministros da Educação não tiveram a coragem de gizar um plano para o Ensino no nosso país. Mas, claro que, cada equipa ministerial, tem uma ideia salvadora, a que nos há-de transformar em cidadãos diligentes e produtivos.

4. Assim fez o actual ministério: passou à acção, fez uma contas por alto e descobriu que punha as escolas a produzir que nem fábricas em tempo de revolução industrial. Os tais “supeitos” dos professores passaram de oito a oitenta (os exageros eram realmente muitos), com horário fixo, ainda que em condições de verdadeira insalubridade mental.

5. Há furos nos horários dos alunos? Falta alguém (ou melhor, alguém ousou faltar, apesar das ameaças?). Temos os professores. Falta pessoal nas escolas do 1ºciclo para cumprir as precipitações das promessas eleitorais? Temos os professores.
Então e o meu know-how? Então o que eu aprendi e investi nas minhas três dezenas de anos de trabalho, que podia ensinar agora aos outros? Então, e os meus colegas mais novos, também vão para a fogueira connosco, num desemprego que podia ser transformado em actividade lectiva e produtiva (saberá a governação que o subsídio de desemprego gera incapacidade e solidão, provavelmente o pior dos males sociais do nosso tempo?).

6. Hipotecar as sinergias de que tanto precisamos, acusando os professores de uma calamidade que é, realmente, um sério problema de todos os países, na cegueira do consumo e a iliteracia, corresponde a hipotecar o futuro.
Apesar da pompa e da circunstância, apesar do “terramoto” de ideias avulsas e condenadas à sua auto-extinção, o ensino continua de rastos e o rei vai realmente nu.

7. Neste cenário, qualquer palco semelhante ao de um manicómio se afigura possível: pais a avaliar quando têm crianças para educar, crianças no limiar da miséria empurradas para a Escola como se de uma casa de correcção se tratasse, professores a ensinar sem condições psicológicas nem mentais, por razões de sobrevivência (porque não?). E os maus e bons professores, os profissionais “de carteira”, de primeira água, os jovens professores, sem retaguarda nem direito a ela, apostados numa Escola em que todos são, cada vez mais, carne para canhão.

8. Boas práticas? Aguardemos o tempo em que as cadeiras mais uma vez irão rodar, e as cabeças rolar, para ver por onde andam, e têm andado, realmente, os destinos da Educação em Portugal: sem rumo e sem norte, como de resto, todo o país, que empobrece cada dia que passa e se cobre de vergonha perante tanta mentira junta.

9. O mito da ministra competente porque é "dura" agrada a muitos, que acham que têm que se "educar" profissionais, a classe que lhe segura os pilares da educação, tratando-os como lacaios, desde que pisou a soleira do Ministério que "dirige" . Um dia saberemos a extensão dos danos colaterais desta atitude que, continental por excelência, em que se acusa, rejeita e manda, revelando uma "capacidade" de diálogo que é realmente um exemplo de más práticas, semelhante àqueles professores para quem os alunos são todos burros e não aprendem.


Nota: Não me vou pronunciar sobre aquele simulacro de discussão sobre violência nas escolas, com crianças de cara tapada, uma aula de descontrole total a ser filmada com câmara oculta (???), enquanto as "outras" as normais, ficaram atrás das câmaras. Custou-me ver um ex-bom pivot prestar-se àquilo.
Ler outros que nem eu aqui, aqui, aqui, aqui ou aqui.



sejam bem vindos, mesmo que não venham por bem.


Armandina Maia