sexta-feira, julho 21, 2006

os pássaros também têm morada

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Do cenário, tornado habitual aos nossos olhos alheios e domesticados, a câmara fixava um ou outro objecto, um rosto sem pertença, a "apagada e vil tristeza" de quem ali vivia.
"Destroços" é palavra pouca em sentido e perda, não cabe nela a dor dos que se tinham lançado à estrada, deixando tudo para trás, num gesto que ficará nas suas memórias, para sempre, como uma morte, que realmente (também) é, o abandono do lugar onde se mora, se cresce e até se nace, sem o poder salvar, sem agarrar nada: a cama onde se dorme, as tábuas do chão que pisamos, às vezes a vida inteira passarinhar em cima daquele chão.

O cenário, como já disse, está morto, é a morte. Sem que nada se mova, entre a desolação que se pressente e a vontade de nos afastarmos, para não ver mais, ergue-se um homem no meio da cena. Como no teatro, entra este personagem vivo.
Um homem alto e magro, comum em tudo, decidido no passo, avança e galga os destroços sem os olhar, se calhar até sem os ver. Caminha direito a um ponto fixo, de que não afasta os olhos nem os passos que o conduzem ao não-lugar.

É então que pára e segura na sua mão direita, uma caixa grande, levíssima, que ele ergue como uma pena, acima do pantanal que lhe envolve os pés. Ergue-a mais acima, ao nível do rosto e, num olhar rápido, vê se ela está intacta. Temos mesmo a impressão que pronuncia umas breves palavra aos seres que a habitam.

Depois, retoma a viagem de regresso, passo longo, decidido, como antes. Agora, porém, o seu coração está menos desabitado, com o calor dos pássaros que salvou da morte.
Nunca esqueçamos os pássaros nem as suas moradas: às vezes, é nas mãos deles que está a nossa salvação.


armandina maia

2 comentários:

C.S.A. disse...

Belo texto, "farol despojado", no desconcerto do mundo.
http://casoual.wordpress.com/

MAM disse...

obrigada pela sugestão. Farol despojado no crescente desconcerto do mundo. um dia destes, vou aproveitar.
armandina maia