quarta-feira, julho 05, 2006

Ainda em tempo de futebol, sem esquecer o país em riscos de ser só litoral

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Chico Buarque, canta Futebol
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1. Os governantes estão desesperados com a situação portuguesa. Por isso multiplicam leis, mas continuam sem nos mostrar em que buraco se enfiaram os recursos económicos de que Portugal dispôs nos últimos anos.
2. Sócrates partiu para esta governação com uma ideia que “colhia” os frutos do desespero dos eleitores: temos todos consciência de que não podemos continuar a gastar o que não há e, o que é mais espantoso, sem proveito que se veja.
3. A questão não é nova: bastará reler algumas passagens de há dois séculos atrás, para comprendermos quanto o país precisa de uma reordenação total em todos os sectores, de uma requalificação transversal e impiedosa, de (finalmente) premiar o mérito, a competência e o rigor como um capital capaz de tecer a rota do futuro.
4. O terramoto de 1755, com a sua dimensão catastrófica, teve a vantagem de dar ainda maior espaço a um homem temível mas audacioso: Pombal não só reconstruiu o país como gizou coordenadas para um incipiente sistema educativo.
5. No amontoado de notícias avulsas que a governação diariamente emite, a ideia com que ficamos é que, passado este “aperto”, a população portuguesa poderá finalmente viver com a dignidade a que tem direito, sem aquele ar de parente pobre que sempre nos acompanha ao sermos confrontados com os outros.
6. O dinheiro acabou. Só mesmo as scuts ficaram, numa birrazita que não tira nem dá nada a ninguém. Tudo o resto voou.
A culpa é dos suspeitos do costume: uma multidão de funcionários, admitidos regular e irregularmente, que gastam o dinheiro todo dos contribuintes. Nunca, porém, ouvi um único comentário que perguntasse quem teve a ousadia de continuar a admitir tarefeiros, assessores, secretárias a triplicar, consultores, etc., etc., etc., sem primeiro se socorrer da prata da casa, dar-lhe formação continuada e criar equipas de trabalho com auditorias externas regulares.
7. O dinheiro acabou. Mas o pior de tudo é que não foi só roubado. Foi exterminado, mal gerido, desviado, esbanjado numa loucura generalizada por um grupo de gente de honestidade moral e intelectual duvidosa, de todos os quadrantes políticos.
8. O dinheiro acabou? Faça-se dinheiro. Abram-se as portas, mesmo sem saber a quem e, claro, corta-se aos pagadores da dízima: no ordenado, nos benefícios, no pouco e no muito.
9. O dinheiro acabou? Fecham-se os hospitais, as maternidades, as fábricas. E as escolas. Os prejuízos, dizem ainda os governantes, são incomportáveis.
(Mas então não se percebe que nas escolas despovoadas, nos hospitais com poucos doentes, nas maternidades sem parturientes, nas escolas despovoadas se poderia construir um sentimento de orgulho pelo investimento da governação no interior do país?)
10. Ficamos como touros enjaulados, a ver a avidez e a mediocridade tomar o lugar dos homens bons deste país, do interior e do litoral.

Do país “todo” que nós somos e que querem desmembrar como se de uma boneca de trapos se tratasse.

Maria Armandina Maia

3 comentários:

Antonio Garcia Barreto disse...

Está aí tudo, Armandina. Excelente post. Gostei muito de lê-lo. E a fotografia é um espectáculo! Parece sépia. Se calhar é.

lector disse...

A leitura do seu texto, Armandina, plantou na minha cabeça uma questão assustadora, terrível: será Portugal um país ou um estado mental partilhado por uns quantos milhões de indivíduos? No momento em que a selecção nacional de futebol acaba de perder uma vez mais com a de França esse estado é sensação de impotência; mas, no instante seguinte, saberemos que é só água caindo sobre o molhado, uma redundância. E contudo apetece dizer (ainda que se agradeçam as alegrias à selecção) aquilo que ouvi a alguém: «Viva Portugal e os Portugueses, a selecção é só 0.000023% da nossa nação (estatisticamente irrelevante)»! Viva também os que não sabem nem percebem nada de futebol. Viva sobretudo os que nos hão-de tirar do curro. Se tirarem. Ámen.

bettips disse...

Preto no branco, só falta dizer que há dinheiro, muito dinheiro, desviado para bolsos e bolsilhos. Novilhos, papos de anjo, vendilhões do templo que somos todos nós. E não vale a pena ir às estatísticas: todos são anónimos, são clubes de interesses, hidra sem cabeça. Como diz o post anterior, cada vez mais parecemos um estado mental, esquizofrénico. Arrumam-nos dizendo que somos uns meros 2 vírgula tal por cento ...
AM vá dizendo, aprendo sempre!