quarta-feira, agosto 16, 2006

como se nada ali tivesse existido

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Como se nada ali tivesse existido.

A praia assim não tem aquele ar violento que lhe dá o mar cavado, a pique, com aquela montanhas de pessoas a gritar perante a investida das ondas.
A praia desta hora tem uma faixa extensa, seca, longa e larga, onde se desenrolam cenas familiares que, de tão ternas, apetece reter para sempre: o pai e o filho adolescente que marcam com os pés na areia molhada o seu campo, o terreiro com baliza e tudo. A fila de velhotas que esperam, com uma espécie de túnica meio-levantada, a chegada do mar que lhes há-de molhar os pés e os ossos desarticulados e doridos. Os putos do surf, ainda no princípio, que só de vez em quando se conseguem erguer sobre a prancha, de onde lhes parece que o mundo é deles, apesar de saberem do perigo que os ronda, com o mar a arrastar as pranchas para longe, cada vez mais longe e com mais força.
E as meninas, curiosamente mais as meninas, a construir afincadamente castelos na areia, com pontes e ameias, passagens subterrâneas que o mar de vez em quando visita, derrubando parte do edifício, perante o desespero dos construtores. A engenharia é cuidada pelos pais, embalados pelo sonho de criança, e agora pelo das crianças que são seus filhos, aplicando-se todos na obra que o mar há-de varrer, numa pazada de água seguida de umas quantas, até alisar a areia, como se nada ali tivesse existido.
Do cenário, ficam só os sons de alegria dos meninos, a saltar dentro do castelo imaginário, gritos que nos trespassam a indiferença com que nos deitamos na areia, alheios a tudo.

Longe dali, neste mesmo planeta, outras crianças gritam perdidas, a sentirem a vida fugir, os pais a desaparecer por entre sulcos que o chão abre. Os (tele)jornais delas darão as notícias necessárias, em números todos os dias acrescentados, entre os civis que os senhores da guerra matam para acertarem num alvo que nem sequer sabemos se existe.
Se calhar é só um castelo como os de areia, que os seus olhos cobertos pela cegueira e sede de poder, tranformam em império. Um deserto de refugiados, um deserto de morte e de terror é o seu espólio, destes guerreiros apátridas que já não se lembram de uma razão para estar ali.
Aqui, como na areia dos castelos românticos, tudo irá ruir, a esperança, a dor, a esperança sobretudo e a vida não se renovará como por encanto. Como se nada ali tivesse existido.

armandina maia
moledo do minho, agosto 2006

5 comentários:

Ultraperiférico disse...

Saúdo este teu regresso luminoso à blogosfera. Luminoso, mas com momentos de trevas que parecendo distantes ficam mesmo aqui ao lado.
Abraços
> Roteia

C.S.A. disse...

Um texto e uma fotografia muito bons como dois pequenos amortecedores para o desfiladeiro mergulhado em escuridão que nos impingem diariamente, como se a vida não pudesse ser outra cousa.
Bem regressada seja.
http://casoual.wordpress.com

MAM disse...

Obrigada a Roteia e a C.S.A., ambos a falar das trevas, que é precisamente a luta maior desta luz de presença. A vida, como NÓS bem sabemos, pode mesmo ser outra cousa. Maior e melhor, um fio de esperança para quem nasce e vive e, só por isso, tem direito a mais do que ao simulacro de "boas obras" que nos rodeia.
armandina

bettips disse...

Que bom, de volta! Nem tenho palavras, hoje. Sabia que alguém ia entender o que subentendia o texto. Vamo-ns vendo ou melhor, sentindo ...Um beijo

lector disse...

Belo texto! Dolorosamente belo. (Saúdo o regresso.)