quarta-feira, junho 14, 2006

Eugénio de Andrade, sonharmos a nossa própria (des)umanidade



Maurizio Pollini executa ao piano Robert Schumann
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Guardei para este post a homenagem a Eugénio de Andrade em Milão de que falei vagamente aqui, onde se ouviram, a par de algumas das vozes mais autorizadas na matéria, teses jovens e inovadoras sobre a obra do poeta.
A maior parte das vezes, ao fim de um calvário de trabalhos forçados que é a preparação de um Congresso, os lucros são magros e fica-se pelo blá, blá, que nada recria e muito menos transforma.
Não foi assim em Milão: as novas vozes foram escutadas com a autoridade que realmente detêm: está nelas o maior investimento, na investigação ou onde quer que seja. Foi com essa ciência que se concertaram afinidades em diferentes línguas e abordagens interdisciplinares, as mais importantes para manter vivo o sangue que corre nas veias dos criadores.
Eugénio de Andrade teria certamente amado ser visto, lido e dito daquela maneira, tão próxima do seu reduto: homens e mulheres a tentar casar-se com a respiração do poeta. Livres do seu ombro tutelar, soltaram as amarras e falaram de um grande poeta, revisto à luz do dia, em pleno sol, com a liberdade que a morte sempre traz.
Deixo-vos aqui algumas frases, escolhidas pelos seus autores, que pretendem ilustrar este postal escrito em Milão, para eugénio, com carimbo postal intercidades.


Nei versi degli altri

Contro la sacralità intangibile della parola montaliana, fuori della quale non c’è nulla e di nulla c’è bisogno, la traduzione di Eugénio de Andrade realizza quell’indispensabile atto di profanazione, che è l’unico modo per vincere l’impossibilità della traduzione poetica. (…) Come ricorda Giorgio Agamben nel suo Elogio della profanazione, ogni profanazione restituisce al libero uso e al commercio degli uomini ciò che era consacrato solo agli dei e, cosa ha fatto Eugénio de Andrade se non “tomar posesión de la poesía de Safo” (ma potremmo dire anche di quella di Montale, García Lorca, Yannis Ritsos, Enzensberger, etc.) “y, de paso, legarla a la poesía en lengua portuguesa? Così facendo, ha certamente commesso un gestio empio e sacrilego, ma i traduttori a qualcosa dovranno pure la loro pessima fama.
Giorgio de Marchis

Un ponte fra Oriente e Occidente
O Oriente sempre me fascinou. O que lhe (refere-se aos chineses) sai das mãos trabalhado em abundâcia de espírito - cerâmica, palha, bambu, comida, caligrafia, pintura, papel, poesia, tecido, pedra, música - tudo revela um saber delicado, subtil, superior.

Michela Graziani

Lume e gatos
A figura do gato tem servido para construir uma reflexão metapoética sobre questões de identidade. O olhar dos gatos, e a reflexão do olhar do sujeito poético no lume dos olhos dos gatos, é uma imagem complexa do intercâmbio entre um Eu e um Outro, de Baudelaire a Eugénio de Andrade, que nos alerta, num seu texto autobiográfico: “Ao fundo de cada uma destas linhas espreita um gato”.


Paulo Medeiros

La poesia nella voce del poeta
Em cada verso de Eugénio transpira o valor e o preço que o autor pagou em nome da poesia. Da sua poesia. E talvez aqui se encontre a questão fundamental sobre este clássico na modernidade europeia: a literatura vale uma vida? E a vida vale a literatura? Serão perguntas de interminável resposta. Mas em Eugénio, ambas se reunem, poesia e vida, numa celebração adâmica e vital, prolongando-se para lá do tempo. Se a poesia se afigura como um sonho feito na presença da razão, Eugénio de Andrade soube legar-nos esta capacidade única de sonharmos a nossa própria humanidade.

Maria Bochichio

Il giorno in cui Eugénio de Andrade connobe Cesare Pavese

O meu objectivo ao dar exemplos de poemas pavesianos imaginariamente inspirados em versos de Eugénio de Andrade foi o de "trocar a rosa", ou seja fazer um percurso de leitura ao contrário: a exemplo do Pierre Menarde Borges, tentei encontrar na poesia de Pavese que obviamente não conheceu a de Eugenio de Andrade, influências deste. Tentei assim estabelecer alguns pontos de contacto entre a poesia destes dois grandes vultos da poesia europeia para mais uma vez comprovar o que já se sabe:que a poesia é universal, e subsistindo no tempo, permite todos os percursos possíveis, cabendo ao leitor estabelecer afinidades electivas entre os poetas de que gosta mais.

António Fournier


2 comentários:

TsiWari disse...

Da poesia, do Eugénio e de tantos outros, tenho só o que de meu construo. Nada de elaborado por estudos afincados e no tempo estendidos.

Gostei do teu mimo ao poeta.

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"a poesia é universal", dixit.

o nosso Universo é tão, tão minúsculo.

o que temos em comum é muito mais que o que nos separa.

alecerosana disse...

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

E. de Andrade

Passo apenas para demonstrar o meu reconhecimento,
Alece