sábado, outubro 21, 2006

o céu abre-se ao meio/ e cai-me no regaço

http://www.pbase.com/adalberto_tiburzi/image/50743683


Um lapso à escuta
1
Não há exaltação
este novelo de sombras
e nos ouvidos
a carne descansa o seu
abecedário.
Tornei-me este planeta por ofício.
Alguns colegas pedem: capelas,
luxos, alquimias.
E outros puxam, palavra
por palavra,
peixes de silêncio.
São atletas de Deus.
E eu confirmo.
também já conheci
os mais puros exercícios
do espírito.
E eu ainda: devagar,
em órbita fechada,
no tempo,
o melhor templo.
2
Inclino na folha
a imprecisão de Deus
Quieto na idade
eu já ouvira
o verbo feito luz
Tacteio o nome
incerto
Fixo o lamento
para a eternidade
3
Na sala ouvia os animais
que nunca vira
e a mão de Deus
batia nos pinhais
Estou só e cheio
do pavor do espaço
o céu abre-se ao meio
e cai-me no regaço
Tão feminino
seu gesto na brancura
dá-me o destino
a troco da loucura


Armando Silva Carvalho, As Escadas não têm Degraus

http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/

3 comentários:

bettips disse...

Quantas vezes ... Também o sentes?Bjinho

Ultraperiférico disse...

Há tanto tempo não lia Armando Silva Carvalho. Faz bem este reencontro com o poeta, abre-se o dia de outro modo.
> Roteia.

alecerosana disse...

Passo para deixar um abraço.
Fechei as portas por uns tempos.