domingo, outubro 01, 2006

carta a um amigo que mora ao lado

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desenho de António Ferra

Amigo,

Depois de tanto silêncio, escrevo-te para te contar de um porquê que nem eu sei, acabrunhada como ando, pelo estado do país, pelo desvario do mundo, pela infâmia que se acumula por toda a parte, como se fizesse parte de um ecosistema.
Talvez por isto ou porque os anos, de repente, caíram sobre nós como uma coisa inevitável e, apesar da tão falada esperança de vida, começamos a perder a esperança no futuro.
Não queremos confessar a ninguém, nem a nós mesmos. Todos esperamos “ver” o milagre acontecer antes do nosso tempo se ter esgotado. Mas também todos sabemos que as guerras vieram para ficar e que os seres humanos continuam sujeitos, como outrora, a condições desumanas e proibidas perante todas as leis de todas as religiões: renovam-se as escravaturas e as servidões e os “salvadores” continuam a torturar prisioneiros, mostrando o seu lado hediondo e grotesco.
Pensámos que tinha passado, que tínhamos uma era nova pela frente. Mas há gente vendida e emprestada, como coisas que sabemos que não são. E há gente que vai ficando sempre para trás, sem casa, sem terra, submersa por forças da natureza que os governos centrais se esqueceram de colmatar.

É tudo gente, como nós, como tu e eu. Ficam anos a fio, encurralados em jaulas, com os defensores oficiais a proferirem belos discursos nos Parlamentos. E morrem. Já não se contam com exactidão, de tantos que são.
Não vivemos no meio deles, é certo, mas vivemos com isto atravessado nos nossos corações e nos sonhos que desenhámos um dia. Vemos como a impunidade galga fronteiras e se instala, ultrapassando todas as regras, como um terreiro deserto onde não mora ninguém.

Esta cela para onde nos arremessaram tornou-se fria e estupidamente pequena. E o céu baixou sobre as nossas cabeças.
De vez em quando telefonamos aos amigos, a dizer que estamos vivos e que gostamos deles. Mas já não nos vemos com a alegria que morava em nós. Arrastamo-nos para os encontros, os jantares de aniversário, as ocasiões festivas. Mas já não nos encontramos nos cafés, nas esquinas, debaixo das árvores, a tagarelar e a rir de tudo e de nada.
Cumprimos os rituais mínimos para sentir a própria pele, mas alguma coisa esfriou dentro de nós, como um peixe morto que continua no aquário.
É claro que inventamos as forças necessárias para ir à luta quando é mesmo preciso. Descemos as avenidas, em bandos, até parecemos alegres. Mas depois voltamos ao canto que escolhemos, o nosso canto, de onde só saímos para trabalhar umas horas, iludindo o vazio que se apoderou de nós, como o tal peixe que só ilude o olhar.
Estamos baços e lassos, amigo.
Por isso te escrevo. Para explicar as minhas ausências inexplicáveis. Para me recuperar e recuperar-te.
Ainda nos temos uns aos outros, a lembrar, vigilantes, que a desordem e o caos hão-de ter um fim. E que ninguém pode, por nós ou em nosso nome, continuar a algemar-nos a alegria de existir.
Estamos com todos, estamos todos, estamos vivos. Estamos.

Abraços. Como sempre.

armandina



8 comentários:

TsiWari disse...

Inspiraste-me para um post... lerás depois, lá no canto do costume.

Bjo amigo de um amigo (aqui deste lado)

Ultraperiférico disse...

Creio que este post/carta, como o anterior, universaliza e questiona a íntimidade. Por isso deixa que te responda, minha amiga:

Não sei se nos envolve o peso das mágoas do mundo, ou se somos nós todos que poluímos o ar de amargura. Tempos dificeis deveriam colocar-nos ante os porquês, ante as transformações necessárias... porém, parecemos perigosamente anestesiados.
E agora?

> Roteia.

MAM disse...

É por causa da anestesia, da desistência, da amargura que escrevi a este amigo. A solidariedade que aprendemos tem que nos bastar. Não para "voltar a ser quem éramos", como diz a canção, mas com a consciência que o tempo que temos contra nós é também a nosso favor...se soubermos, quisermos e pudermos transformá-lo num aliado.

armandina

Ultraperiférico disse...
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Ultraperiférico disse...

Armandina:
Um sábio da Antiguidade disse:
"Não é por as coisas serem difíceis que nós não somos corajosos. É por nós não sermos corajosos que as coisas são difíceis".

Abraços, PropranoLoL.

nnannarella disse...

ciao bella.
uma amargura incontornável.
mas passageira, acredito.
porque assim como não há bela sem senão, assim a desordem e o caosconstroem milagres inesperados...:)

nem acredito que te reencontrei por aqui. anda cá, e vê lá se descobres quem sou...:)

Maria de Lourdes Beja disse...

Quando se tem a lucidez suficiente para"saber" que «ninguém pode continuar a algemar-nos a alegria de existir», não só se está VIVO, como se está apetrechadíssimo para «do nosso canto» emitir, irradiar, uma potentíssima luz, não de presença apenas, mas de CONFIANÇA malgré tout...( ou será de esperança...ainda? )

Nuno Gouveia disse...

Agora só podemos fazer uma coisa.
Sugerir o amor, como e onde pudermos.
É esse o impulso que sentimos, não é?
Então deve ser fácil, não deve?
Estamos tão mais "perigosamente anestesiados", quanto mais pensamos estar.
Mas não estamos, pois não?
Podemos comunicar com quem quisermos, e da forma que escolhermos.
Podemos sugerir o amor a qualquer um,
e melhor, a qualquer hora.
Quanto melhor, a comunicação de um,
mais responsável se torna, por essa grande sugestão.
A maior de todas, como a da MAM e do seu amigo, minha e tua, e de todos os
homens e bichos.

Minha amiga, ainda ontem escrevia:

Aceitar, não temer, o aceitar.
Receber, não temer, o receber.
Estar em vez de dar, dar em vez
de estar?
Que divisão é esta que nos atormenta?
Que birra alucinada nos sustenta?

E a minha amiga é das maiores.
Daquelas que ainda vão sugerir muito,
e muito amor.