domingo, maio 07, 2006

contigo na moldura, serena e cálida



Finalmente, depois de todos estes anos, pus o teu retrato na moldura. Era uma moldura angular, quase imponente, de madeira polida e firme.
Olhei para o retrato e para a moldura e descobri que combinavam. Meti-te lá dentro, e vi-te no retrato.
Depois destes anos todos, consegui por-me fora, desatar a correr. Contigo na moldura, serena e cálida. Assim, de fora, te falo agora, a ver-te com surpresa, para sempre na moldura.
Ainda não sei se me foste boa ou má, ainda não descobri a manta que nos agasalhou. Sei que o teu silêncio me fez renascer de não o querer. De não me querer acasalar naquele choro manso que fazia ranger o espaço e nunca mais deixava as aves voarem do ninho.
Dorme bem, eu tratarei de limpar o pó da moldura.

armandina maia

5 comentários:

Ultraperiférico disse...

Há retratados que em silêncio nos mostram fantasmas residindo dentro das fotografias, ou talvez no interstício do pass-partout, entre a superfície da imagem e o vidro. Alguns eventualmente residem tímidos por detrás da imagem. Se fixarmos demoradamente o rosto de um retratado acabamos por conseguir ver ligeiros movimentos dos lábios, o esboço de um sorriso. Subindo os olhos vemos um leve tremer das pálpebras e o brilho das pupilas. Por vezes os olhos enchem-se de expressão, ficam húmidos e as lágrimas quase afloram. Depois regressa o sorriso, completando o ciclo. Mas há dias em que os fantasmas permanecem ausentes, como que adormecidos. E nesses dias não há nada a fazer.
Roteia.

Ultraperiférico disse...

Creio que as mães se cansam de estar nas molduras, andam por todo o lado, a vigiar-nos, sempre com aquela mania de que nos podemos constipar ou de que não comemos o suficiente. Irritam-nos muitas vezes, coisa de crianças. Quando elas deixam de morrer, passam a andar sempre connosco, ficam leves, tornam-se portáteis. Para sempre.

Propranolol.

ceciliaduarte disse...

gosto muito de fazer retratos
mas detesto que mos façam a mim
os retratos antigos parecem pinturas
os modernos não prestam sem emoção
molduras e retratos nem sempre casam
mas são um complemento necessário como a vida por dentro e por fora

Ultraperiférico disse...

Cecília: Permita-me que lhe diga que os retratos antigos já foram, no seu tempo, modernos. Assim sendo os retratos modernos serão, a seu tempo, antigos.

Roteia

Retrato disse...

Olá doutora encontrei-a aqui não por acaso mas porque pesquisei por o seu nome no motor de busca do sapo e por sorte vim parar a este blog.
Gostei muito do que escreveu, pois como sempre fe lo com mestria, ou nã se chamasse Maria Armandina Maia.
gostaria de saber o seu endereço electronico para poder trocar alguma ideias consigo. um beijinho com muito carinho e muita saudade, do seu amigo João Paulo Martins Saldanha.
jsaldanha@hotmail.com