sábado, novembro 18, 2006

a espada do rei salomão

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Lou, House of hands

A miúda estava especada no meio da rua, a dois passos da Escola, a olhar para o chão como se esperasse dali alguma salvação. O pai, desabrido e choroso, agitava os braços em todas as direcções e não parava de acusar: a mulher, por lhe ter roubado a filha. A filha, de onze anos, por não saber dizer que não à mãe. A mulher, que estragava a miúda com todos os vícios do mundo. Chorava entretanto, a meio das frases, como um soluço, para dizer que gostava muito dela. Leia-se da mulher. Aquele homem estava só, sem mulher e sem filha, e nem os muitos copos que dava sinal de ter engolido avidamente lhe atenuavam a dor.
Com aquela perda, arrastaram-se para a superfície todas as outras: no trabalho, os polícias, seus colegas, que o queriam tramar, os bandidos que rondavam a saia da mulher para a ajudarem a perder-se. E ele, o salvador de vidas, o que arriscava tudo pelos outros, estava ali como um pobre diabo, um sujeito que inspira alguma compaixão aos outros, pelo desespero caótico que soltava, nos gestos, na voz, nos tímidos choros brandos.
E a miúda ali especada, a ver a mãe a outros dois passos, com um ar levemente irónico a aflorar-lhe as pupilas e uma voz dura que dizia suavemente “Devias beber menos”, para fazer o pai recomeçar o jogo de desnorte, a ladaínha das batalhas perdidas, a fúria da dua castração e impotência.
Nem a doçura da filha os demovia. Nenhum dos dois a afastou da cena, nenhum amor superou o gozo e a dor de se agredirem mutuamente através dela.
A a miúda ali especada, a dizer-me “Eles zangaram-se e eu, estou aqui”. A mais, pensei eu. Só espero que ela nunca venha a descobrir.
Na rua, a dois passos de todos nós, um amolador de tesouras e navalhas soltava a sua melodia, inconfundível, a lembrar-nos um tempo em que todos pensávamos que ser feliz estava a dois passos de distância.

armandina maia

7 comentários:

AGB disse...

Bela narrativa.

bettips disse...

Violência psíquica, que também é violência, nem cabe nas estatísticas. Descreve-la despidamente. Fizeste-me tb lembrar a história de amor e justiça que sempre admirei por sábia. Bjinho

TsiWari disse...

fica um amargo depois desta leitura. mais uma vez, num dos teus tão belos captares do quotidiano...

escreve demasiado bem quem isto consegue.

*

Uma mulher disse...

me faz pensar em tantas coisas....gosto dessa forma sensivelmente narrativa de escrever...
um beijo.

lector disse...

Aceno-lhe do meu texto irmão. Porque todos somos crianças feridas. Cujo futuro depende da reconciliação com o passado. Porque só há alegria quando se inscreve o passado imóvel e sobre ele se escreve o futuro. «Sobre ele» ou: em cima dele, removendo-o com o bico do lápis da acção, pondo em movimento. Reescrever o passado com o futuro é isso «ser novo».

lector disse...

Ah, esqueci-me de dizer: muito dificilmente se encontraria uma imagem mais a propósito. Parabéns!

Rotação dos tempos disse...

Vi ontem na minha rua ( da Alegria) um amolador de tesouras. Já são poucos e muito raramente se vêem por aí. Tocou o "assobio" do costume e...a fazer fé no que me dizia a minha avó...amanhã vai chover.
Bj**
http://rotacaodostempos.blogs.sapo.pt