quinta-feira, janeiro 18, 2007

contagem [de]crescente 8

imagem de antónio ferra

Amanhã chegam os dias claros, ou, pelo menos, os dias mais claros, ainda que com indizível sofrimento. Mas tudo é possível, nesta roleta russa onde nos puseram. Quem poderá dizer onde andará o sol, o tal que é para todos, amanhã de manhã? Pode ser que brilhe com a sua precisão de majestade, e tire, de uma vez, a patinha presa na neve, que não nos deixa ver o mar nem cheirar os ventos das marés.

armandina maia

quarta-feira, janeiro 17, 2007

contagem [de]crescente 7

imagem de antónio ferra

A luz chega agora por muitas vozes que nos dizem ser este o caminho, e seguimos em frente, já parcos nas palavras, porque o amor diz-se melhor em silêncio. Preparo a tua partida, a tua mão a acenar, o teu adeus de um remorso inexplicável, o de todos os filhos que, um dia, quando a própria vida lhes impõe, têm de ficar a sós com ela, para ver quão grandes são, afinal. Aprisionar o amor não é, nunca foi, uma forma de amar. Por isso, te desejo com a mesma força irremediavel de sempre, que não voltes nunca para o ventre, eterno ou materno. A diferença é pouco mais que nenhuma.
armandina maia

terça-feira, janeiro 16, 2007

contagem [de]crescente 6

imagem de antónio ferra

Do toque no fundo que senti durante anos, daquela asfixia permanente, senti-me soerguer por uma alavanca invisível que, mais uma vez, provinha do meu coração.
Talvez um dia diga da minha alma, mas, naquele tempo, ainda tinha medo de nomear as coisas não-científicas, aquelas a que os homens fogem em conversas públicas, com medo de desvendar os mais intímos e ínfimos mistérios que lhes ladeiam o ser.
Empurrada por aquela força tamanha, aprendi num golpe de asa o poder da misericórdia: real, infinita, palpável, ilimitada, que há nos diferentes, nos que esperam, nos sozinhos, nos putos, nos pais dos putos, nos velhos. Nunca os tinha visto como ali, naquele longo desfile de gente que esperava, um grupo de gente sem nada nem ninguém, a quem só a alma de cada um podia salvar.
Foi nesse dia que percebi que a tua luz andava perto e a estrela se aproximava a passos largos, mesmo quando o sol a ofuscava.

armandina maia

domingo, janeiro 14, 2007

contagem [de]crescente 5

imagem de antónio ferra

Soubémos então que os pássaros se preparavam para te salvar. O meu coração passou a seguir a estrela: mesmo quando não se via, coberta pelas densas florestas, impenetráveis, o meu coração arrancava-as do lugar, sem querer saber do quanto eram antigas. Mais antigo do que o mundo todo era o meu amor. Dos pecados haveria de me redimir depois, quando o chão voltasse ao seu lugar e o céu deixasse de me oprimir como uma cilada permanente.

armandina maia

contagem [de]crescente 4

imagem de antónio ferra

O deserto interior doía-me como uma cicatriz invisível aos olhos dos outros. Depois de secarem as lágrimas, tudo se tornou mais fácil dada a opacidade crescente em que estão envolvidas as almas que nos rodeiam. Mas eu saía a procurar-te e deixava-te recados por toda a parte: nos vidros dos carros, no cimo dos telhados, na cama que arrefecia à tua espera, nos jornais, onde também procurei o cão perdido. O cão um dia apareceu, sem ninguém explicar como nem porquê. Apareceu diante de nós, incrédulos, ergueu ligeiramente o olhar manso bovino que é o dele. E perguntou por ti e pelo mar. Foi então que, pela primeira vez, vimos a estrela sobrevoar as nossas cabeças.

armandina maia



sábado, janeiro 13, 2007

contagem [de]crescente 3

imagem de antónio ferra

Só muito mais tarde soube, pelo voo inquieto dos pássaros e pelos latidos do cão que te esperava, que o teu caminho não estava ainda encontrado, embora parecesses ter chegado quase à tona do labirinto. A minha mais perfeita medida era o aperto do coração, esvaziado de outros sentires, que agora apenas batia ao compasso do teu, como se um novo parto nos unisse outra vez e fôssemos só nós a decidir por que luta se morre ou se nasce.

armandina maia

sexta-feira, janeiro 12, 2007

contagem [de]crescente 2

imagem de antónio ferra

Pressentia-te como o chão que pisava, em toda a parte, como se, por baixo de cada um dos meus passos, tu te/me procurasses, sem saber de nenhum de nós. Esta perda foi a maior, perder o norte, não saber em que sentido estender a mão para te agarrar de uma possível queda, em busca da luz, a que eu também para ti buscava. Desde sempre, contigo, para ti e por ti, onde quer que estivesses, o meu amor havia de atravessar as grutas e os desertos, as rochas impiedosas na sua mudez, os mares que agora seguiam sem ti, sem a força dos teus braços a enterrarem-se neles, como num leito. Hás-de voltar, digo-me, hás-de voltar, digo-te, ainda às voltas nas praças, sem luz e sem norte.

armandina maia



quinta-feira, janeiro 11, 2007

contagem [de]crescente

imagem de António Ferra

Um caudal de tristeza arrastou-me para uma corrente sem fundo. Os dias sucederam-se negros e iguais, sem brecha por onde passasse qualquer pequena luz a dizer-me de ti. Só (n)0 meu coração te sabia, sem como nem onde, como um presságio de vida, um sopro que nos consente dar os passos em volta de nós e permanecermos vivos, apesar. É assim que conhecemos a verdadeira dimensão do amor, quando um lugar fica vazio e não nos podemos sentar nele, porque aquele é o lugar de nós e o meu eu desnasce sem o nós que tu me trazes. É então que viajamos pelas ruas, pelos becos, pelas igrejas, pelos abismos, à procura do encontro que nos há-de conduzir de novo à luz que nos coroava as cabeças quando éramos parte um do outro. Sabia-te à procura da saída do labirinto, a encher o peito de força e o coração de lágrimas, que os olhos, nossos, tinham secado diante da parede nua e fria que se erguia, como a formiguinha com a patinha presa na neve.

armandina maia, dia 11 de Janeiro de 2006

terça-feira, janeiro 02, 2007

mais forte do que a morte

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fotografia de antónio ferra

Voz amiga, de um dos blogues que fazem permanecer neste posto, fez-me notar o lapso da data do post anterior, que era de Dezembro de 2007 e não de Dezembro de 2006 e acrescenta:

talvez a Armandina tenha percorrido o ano todo de desejo?


Não sei já bem o que é o tempo, desde que o voo das aves baixou e tudo ficou em suspenso como se nada mais pudesse acontecer. Tenho sentido este peso a puxar-me para a terra dia e noite, como quando se está de luto e nos sentimos traidores por estarmos ainda vivos.

nenhuma solidão, nenhuma mágoa, nenhum ódio é mais longe que esta espera, que foi até agora, infinita, magestosa, soberana dona da minha vida.

sem rumo, sem regra, sem deuses, tenho caminhado só porque conheço de cor todos os caminhos, mesmos os de pedras árduas onde nunca andei mas poderia ter andado, de outra tivesse sido a minha geografia.

a luz entrará novamente no lar que ainda existe, os escombros estão perfeitamente imóveis à espera desta luz para se reconstruírem sozinhos, com a matéria viva dos sonhos que gerámos nas noites intermináveis.

aos dezanove dias de janeiro começa enfim este ano, que iluminará para sempre a sombra, que se ergueu como um muro, o muro que nos separou, o sol que não vinha, a formiga que prendia a patinha na neve, e o sol que não vinha e a sombra que se erguia atrás do muro, em vez do sol, e do mar

tenho tudo aqui, na palma da mão. o teu adeus, alegre, confuso, balbuciante, o teu adeus que abaterá o muro, para que não se erga nunca mais.

eu continuarei aqui, invencível no meu amor

mais forte do que a morte

armandina maia, dia um de janeiro de dois mil e sete

sábado, dezembro 30, 2006

entre o voo e raíz

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imagem de antónio ferra
Entre o voo e a raíz

Amigos,

Sinto que os anos nos fogem por entre os dedos da mão, frágil para conter o coração menos ágil, que ainda colhe, não sei de qual raíz, a pureza e os mistérios dos sentimentos nobres. Aqueles em que mergulhamos como numa profissão de fé, que nos diz que somos de um todo e só todos (nos) fazemos sentido.
Busquemo-nos pois, mais agasalhados por causa do frio da estação, que a idade chega e nunca recua. Só a tal raíz nos torna invencíveis e audaciosos, como se o frio aqui não estivesse, a criança de dois anos brincasse como fazem as crianças de dois anos, as mesas resplandecessem da luz do brilho das famílias em volta, sem distância, sem almas perdidas, sem lugares vazios.
Muitas vezes me sentei nesse lugar, o lugar vazio e caminhei pelos corredores às escuras de olhos fechados, a desafiar o medo. Isso no tempo em que o meu coração voava.

Neste Ano de 2007, quero encontrar-me entre este voo e a raíz de que te falo, quero ver-te outra vez junto ao mar, quero sentir o teu olhar quente de alegria cruzar-se como meu, como velhos amigos que se entendem com um só suspiro.
Neste Ano de 2007, quero ser mais forte, capaz de enfrentar a fraqueza dos outros com o poder infinito das alianças, do acreditar infinito que conheço de cor e recomeçar as cantigas de embalar que quase esqueci, afinando a voz que de vez em quando lembro que existe, fina e bela.
Neste Ano de 2007, quero enterrar o simulacro de gente com que me cruzei, ímpia, pobre e crua na sua ignorância maior que é a avidez, para regressar a mim e ao lugar a que pertenço, a que pertencemos todos os que nunca estamos sós, porque, a um só gesto, somos todos um, no pensamento, no voo e na raíz.

Maria Armandina Maia
30 de Dezembro de 2007

domingo, dezembro 24, 2006

a esperança continua a ser o berço que nunca abandonámos


natais pequeninos

Recolhem-se os pedaços de fita que ainda podemos aproveitar, restos de embrulhos, sobras da comida que ainda imitamos, por persistir na memória das coisas.
se calhar, mais do que tudo, existimos nela, a tal memória que nos cola os cacos que um dia nos aparecem à frente como uma barreira intransponível. uma daquelas barreiras pequeninas e cobardezinhas, que cortam o olhar de quem quer passar além.
vivemos todos atrás de uma barreira assim, pequenina e cobarde.
só a memória leva até ao outro lado.
eu sou só a mais longa memória do que vivi, do que vi e do que pressenti.
e sou ainda a viagem constante entre rostos que me deram a vida que todos os dias me sobra, do muito que já me coube.
por isso eu quero cada vez menos natais pequeninos de shoping center, habituada como estou às mordomias de natais diários, em trocas de amigos que vão onde eu for, onde quer que seja o norte.

armandina maia
natal de 2004


natais dos pequeninos

Sabendo, como sabemos, da sua passagem efémera e de como tantos se afastam cada dia que passa de um qualquer espírito de ajuda, fraterno e solidário,
mas sabendo, como sabemos, que a nossa vontade tem de ser maior, e vencer a vidinha que com tanta nitidez se desenha no horizonte poluído de gente infértil,
sabendo, como sabemos, que continuamos juntos, num abraço que nunca se desfez, a esperança continua a ser o berço que nunca abandonámos, seja ou não dia de natal.


armandina maia
natal de 2006

domingo, dezembro 03, 2006

gisberta, um adeus português

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Freedom
, Barbara Lessing, Jardins de Bagdad, 2004


Muito do lixo televisivo e dos pasquins vários que dão pelo nome de jornais, alimenta-se, invariavelmente, de uma "programação" para os eruditos e os "furos" jornalísticos, a farejar sangue, a chegar-se cada vez mais, às telenovelazinhas domésticas. Num e noutro caso, em pouco se engrandece o parco território cultural que por cá se respira.
Foi, portanto, com grande surpresa que vi erguer-se um muro de silêncio em torno do caso Gisberta. Claro que se ouviram, aqui e ali, uns tímidos protestos e uns laivos de jornalismo crítico e vivo. Mas só há 2 ou 3 dias encontrei uma rigorosa história, que ia muito para além dos factos públicos, tentando perceber o nó da questão.

Que há um nó, há certamente: um travesti assassinado, que, mais tarde se descobre ter morrido por afogamento e, mais ainda, cujos jovens assassinos vão sendo transformados, do dia para a noite, pelo próprio Ministério Público, de hediondos criminosos em crianças em risco, sem consciência que estavam a maltratar alguém até à morte, é caso, no mínimo, para ficarmos -ainda - mais inquietos sobre o estado da justiça em Portugal. E que toda atrapalhada à volta deste caso tenha pacificamente sido manipulada a bel-prazer dos poderes instalados, não é caso para ficarmos mais descansados.

Longe de mim a ideia de os jovens à beira do abismo fossem lançados à fogueira, mas, conhecendo como conheço, algumas dezenas de jovens em risco, não me parece ter sido exemplar despenalizar o crime. Teria sido, sim, importante, para a sociedade, mostrar como se cruzam as faixas do bem e do mal, e como, perigosamente, alguns jovens, por desporto, por ócio, por ódio aos pais que os deixaram entregues à sua sorte, por imitação dos chefes de fila, por medo de ficar para trás e não serem ninguém na vida, nem como não heróis, por raiva mal contida contra os agressores que muitas vezes os rodeiam e lhes fazem de pais e de carrascos, com alguns maus tratos pelo meio e talvez umas festinhas na nuca a lembrar quem manda em quem, talvez por isto ou por qualquer outra razão que não conheço, alguns jovens vivem numa ravina onde só se desce, e despenham-se sem sequer deixarem vestígio de ali terem estado.

Jovens como este povoam hoje grande parte do mundo, encostados às paredes à espera do biscate, dos desempregos sucessivos, arrastando-se até ao fim do mês para receber o subsídio, a esmola que lhes pagam para fingirem que estão vivos, qundo, afinal, como eles muito bem sabem nas noites insones, nada nem ninguém os espera. Mal sabem falar, muito menos escrever, apesar das suas cabeças adivinharem a escuridão que se aproxima, quando um dia ficarem na esquina à espera do cliente e começarem a chutar no corpo algo mais forte do que os penalties que já não lhe abrandam aquela dor permanente de não serem de ninguém.


A Gisberta, não sabemos como nem porquê, também por aqui passou. Não sei em que esquinas perdeu aquele ar de quase senhora de que parecia orgulhar-se, o rosto sereno e altivo, rodeado de cabelos principescos, que a fariam passar por uma diva em férias, o ar doce com que se debruçava à janela a falar com avizinha, a quem pintava o cabelo, com as suas mãos de homem que conheciam o fazer das mãos de mulher.

Não sei porque veio para este país pequeno e pouco tolerante, apesar das aparências, talvez para ficar longe dos que a amavam fosse ela quem fosse, talvez para se pôr à prova, talvez atrás do sonho europeu...

Sei que um dia tropeçou na vida. Irremediavelmente. A droga, a prostituição e a sida fazem um triângula perfeito, para quem tropeça assim, numa espécie de morte que já não altera muito a condição da vida (?).

Há hiatos nesta história, mas a Gisberta, um dia, deixou de importar consigo, gastou as botas até ficarem cambadas, abandonou os cabelos que lhe enfeitavam o olhar e passou andar rente às paredes, para ninguém a ver. Por falta de pagamento, foi andando de quarto em quarto, de rua em rua, de beco em beco, até chegar àquele poço inacabado onde restos de pessoas se acolhiam.

A sua paz não durou muito, porque os "putos" a descobriram e acharam importante mostra-lhes o seu pseudomachismo, cuspir-lhe na cara, usá-la como coisa. Um lixo, comparada com eles, que tinham casa, mesa e roupa lavada. Um lixo que eles nunca haviam de ser, apesar das mães e os pais os terem armazenado naquela casa grande onde sentiam medo e solidão. Um trapo, uma bola de ninguém em que todos podem chutar.

O "verdadeira" óbito dentro do poço é, realmente, de uma exactidão impressionante e hipócrita. Gisberta foi maltratada até à morte, repetidamente, por meninos pequenos com muita morte dentro deles. (Tivesse sido um cidadão português com os impostos em dia, o desfecho do caso teria sido bem diferente, mas, temos de comprender, travesti e brasileira, oque é que nós temos que ver com isso?).


Resta-me a consolação de presentir que Gisberta não morreu só daqueles maus tratos. Morreu muito antes, numa porta qualquer em que perdeu a esperança. Morreu sem ajuda, sem ninguém que lhe acudisse, ao ouvi-la gemer e chorar, sem ninguém que lhe desse a mão. Por pena, nem que fosse.
Gisberta morreu porque não havia humanos por perto, na hora da sua morte. Morreu em plena travessia do deserto de que são feitos a solidão e o esquecimento.


armandina maia

domingo, novembro 26, 2006

Mário Cesariny, lugar de exílio claramente iluminado

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poema podendo servir de posfácio

ruas onde o perigo é evidente
braços verdes de práticas ocultas
cadáveres à tona de água
girassóis
e um corpo
um corpo para cortar as lâmpadas do dia
um corpo para descer uma paisagem de aves
para ir de manhã cedo e voltar muito tarde
rodeado de anões e de campos de lilases
um corpo para cobrir a tua ausência
como uma colcha
um talher
um perfume


isto ou o seu contrário, mas de certa maneira hiante
e com muita gente à volta a ver o que é
isto ou uma população de sessenta mil almas devorando almofadas escarlates a caminho do mar
e que chegam, ao crepúsculo,
encostadas aos submarinos


isto ou um torso desalojado de um verso
e cuja morte é o orgulho de todos
ó pálida cidade construída
como uma febre entre dois patamares!
vamos distribuir ao domicílio
terra para encher candelabros
leitos de fumo para amantes erectos
tabuinhas com palavras interditas
– uma mulher para este que está quase a perder o gosto à vida – tome lá –
dois netos para essa velha aí no fim da fila – não temos mais –
saquear o museu dar um diadema ao mundo e depois obrigar a repor no mesmo sítio
e para ti e para mim, assentes num espaço útil,
veneno para entornar nos olhos do gigante


isto ou um rosto um rosto solitário como barco em demanda
de vento calmo para a noite
se nós somos areia que se filtre
a um vento débil entre arbustos pintados
se um propósito deve atingir a sua margem como as correntes da terra náufragos e tempestade
se o homem das pensões e das hospedarias levanta a sua fronte de cratera molhada
se na rua o sol brilha como nunca
se por um minuto
vale a pena
esperar
isto ou a alegria igual à simples forma de um pulso
aceso entre a folhagem das mais altas lâmpadas
isto ou a alegria dita o avião de cartas
entrada pela janela saída pelo telhado
ah mas então a pirâmide existe?
ah mas e então a pirâmide diz coisas?
então a pirâmide é o segredo de cada um com o mundo?


sim meu amor a pirâmide existe
a pirâmide diz muitíssimas coisas
a pirâmide é a arte de bailar em silêncio


e em todo o caso
há praças onde esculpir um lírio
zonas subtis de propagação do azul
gestos sem dono barcos sob as flores
uma canção para ouvir-te chegar

Mário Cesariny

http://portugal.poetryinternationalweb.org

http://infinito-pessoal.blogspot.com

sábado, novembro 18, 2006

a espada do rei salomão

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Lou, House of hands

A miúda estava especada no meio da rua, a dois passos da Escola, a olhar para o chão como se esperasse dali alguma salvação. O pai, desabrido e choroso, agitava os braços em todas as direcções e não parava de acusar: a mulher, por lhe ter roubado a filha. A filha, de onze anos, por não saber dizer que não à mãe. A mulher, que estragava a miúda com todos os vícios do mundo. Chorava entretanto, a meio das frases, como um soluço, para dizer que gostava muito dela. Leia-se da mulher. Aquele homem estava só, sem mulher e sem filha, e nem os muitos copos que dava sinal de ter engolido avidamente lhe atenuavam a dor.
Com aquela perda, arrastaram-se para a superfície todas as outras: no trabalho, os polícias, seus colegas, que o queriam tramar, os bandidos que rondavam a saia da mulher para a ajudarem a perder-se. E ele, o salvador de vidas, o que arriscava tudo pelos outros, estava ali como um pobre diabo, um sujeito que inspira alguma compaixão aos outros, pelo desespero caótico que soltava, nos gestos, na voz, nos tímidos choros brandos.
E a miúda ali especada, a ver a mãe a outros dois passos, com um ar levemente irónico a aflorar-lhe as pupilas e uma voz dura que dizia suavemente “Devias beber menos”, para fazer o pai recomeçar o jogo de desnorte, a ladaínha das batalhas perdidas, a fúria da dua castração e impotência.
Nem a doçura da filha os demovia. Nenhum dos dois a afastou da cena, nenhum amor superou o gozo e a dor de se agredirem mutuamente através dela.
A a miúda ali especada, a dizer-me “Eles zangaram-se e eu, estou aqui”. A mais, pensei eu. Só espero que ela nunca venha a descobrir.
Na rua, a dois passos de todos nós, um amolador de tesouras e navalhas soltava a sua melodia, inconfundível, a lembrar-nos um tempo em que todos pensávamos que ser feliz estava a dois passos de distância.

armandina maia

quarta-feira, novembro 01, 2006

eu fico-me pelo ranger do silêncio que se fez à sua volta


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Num dia em novembro damos pela sua presença que tínhamos como certa no tempo em que decoravam os cenários familiares. Achávamos que eram eternos e os sentimentos eram às vezes escassos. Uma pouquidão crescia, muitas vezes, como se receássemos mostrar-nos, na nossa fraqueza. Um dia, deixámos de os ver à nossa volta, e estranhamos, até às lágrimas. Mas, um dia de novembro, iremos sentir-nos pequenos diante dos que saem regularmente de suas casas e, seja ou não novembro, vão pôr-lhe flores frescas e conversar com eles. Como se fizesse parte das suas vidas.
Eu só os lembro, tímida demais com esses outros gestos e fico-me pelo ranger do silêncio que se fez à sua volta, a ler e reler o que os outros disseram, ciente como nunca da minha infinita fragilidade.

Em Novembro inicia-se o retorno
dos mortos mais longínquos. Dos que se iam
esquecendo do seu corpo,
ao mesmo tempo que ver-nos se lhes ria.
Somente estavam longe porque os olhos
com que os amáramos tinham
o volume perdido do seu morno
amor; ou da alegria
com que crescendo fôramos no outono
da sua ausência sapientíssima.
De resto, andavam próximos. Os olmos
quase que só escondiam
andarmos a acordar aos poucos
à vigília.
Mas, em Novembro, os corpos,
com toda a sua transparência, vinham
abrir o lugar; lustrar os copos
que o Natal da mesa alargaria
em paisagens atónitas, que todos
andaríamos vendo. E que nos viam
andar por elas dentro. E pelo próximo
retorno que em Novembro se inicia.

Fernando Echevarría, Sobre os mortos

sábado, outubro 21, 2006

o céu abre-se ao meio/ e cai-me no regaço

http://www.pbase.com/adalberto_tiburzi/image/50743683


Um lapso à escuta
1
Não há exaltação
este novelo de sombras
e nos ouvidos
a carne descansa o seu
abecedário.
Tornei-me este planeta por ofício.
Alguns colegas pedem: capelas,
luxos, alquimias.
E outros puxam, palavra
por palavra,
peixes de silêncio.
São atletas de Deus.
E eu confirmo.
também já conheci
os mais puros exercícios
do espírito.
E eu ainda: devagar,
em órbita fechada,
no tempo,
o melhor templo.
2
Inclino na folha
a imprecisão de Deus
Quieto na idade
eu já ouvira
o verbo feito luz
Tacteio o nome
incerto
Fixo o lamento
para a eternidade
3
Na sala ouvia os animais
que nunca vira
e a mão de Deus
batia nos pinhais
Estou só e cheio
do pavor do espaço
o céu abre-se ao meio
e cai-me no regaço
Tão feminino
seu gesto na brancura
dá-me o destino
a troco da loucura


Armando Silva Carvalho, As Escadas não têm Degraus

http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/

domingo, outubro 15, 2006

(d)esse campo minado a que chamamos destino




















Outubro

Caroço de tempestades,
Nó de cobras ardentes,
Este é um mês de chuvas cálidas
E de ventos.

Subversivo ao calendário,
Fruto amargo
Na colheita ancestral.

É sempre outono
Em outubro,
É sempre vento.

Nenhuma cintilação,
Somente o escuro

E no escuro esta sombra,
Graciosa e febril,
Dançando à luz dos raios

— o canto áspero
E o pescoço
Carregado de contas.

É sempre guerra
Em outubro,
Sempre vermelho e azul.

Sempre pendões na ponta
Das estacas
Desse campo minado
A que chamamos destino.

Miriam Fraga, Brasil

quarta-feira, outubro 11, 2006

recolher obrigatório

Infelizmente/ a cicatriz/ já não te desfeia
José Craveirinha

Não sabia que força a sustentava e impelia a enfrentar as manhãs monocórdicas e sem mistério onde tinha mergulhado naquele dia, em que o sol começou a parecer-lhe demais para os seus olhos carcomidos. Niniguém os via assim, ludibriava a todos com o seu ar espantado e límpido, mas já nada a encantava como dantes e o riso tinha desaparecido para sempre de dentro de si. Para sempre? Alguma coisa, em nós, se parte, ao ponto de dizermos para sempre? Não sabia, nem a incomodava a resposta. Sabia que os dias ensombrados se perfilavam como um muro intransponível, árvores cerradas como perfis humanos de silêncio.

Um recolher obrigatório a trazia envolta em si mesma, sem que nada do exterior a fizesse voltar à tona. Afogava-se assim lentamente, embora chorando cada vez menos, pois as lágrimas de longo curso impediam-lhe os movimentos e normalidade. Fora então que aprendera aquele gemido que cada vez menos se ouvia, e soltava umas lágrimas como se espremesse os olhos da poeira. Depois continuava, como poeira tudo fosse. E era.

Precisava talvez da mãe, a que ainda gostaria de salvar da escuridão do esquecimento, talvez pudessem as duas perceber em que nó de mudez se tinham tornado longínquas e sofredoras com a distância. Tinha ouvido, nesse mesmo dia, uma mulher, na rua, falar à mãe com impaciência, a roçar a hostilidade. Lembrou-se de quantas vezes tinha falado assim, como se já lhe fosse tudo insuportável. Não sabia,nesse tempo, que tudo, mas tudo, pode ser de uma falibilidade monstruosa, e que uma voz de mãe é como uma casa aquecida quando tudo gelou.

Nada a devolvia à integridade de alegria de que se tinha feito parteira ao longo de anos, em que inventara palavras, gestos e risos para ela mesma e para quem estava em seu redor.Alimento mais escasso do que muitos pensavam. Às vezes, era preciso ir muito fundo até encontrar o resquício que dava para alimentar a ilusão. Depois, começava o jogo do recolhimento e nele ficava até ser obrigada a asssitir alguém, com o seu riso e o seu olhar de espanto permanente.

Agora, talvez com alguma paz, permitia-se baixar o olhar e não fingir nada. A voz era pouca para alimentar conversas e risos. Mecanicamente levantava-se e preparava mais um círculo na jaula em que movia. Lentamente, sem coragem nem nada, percorria as vezes necessárias até o ciclo do dia se fechar e os outros darem por terminada a sua prestação quotidiana.

Só os amigos lhe chegavam dentro, comovidos e ilesos de pecado, contornavam-lhe os passos e lembravam-na como era, como fora, como queriam que fosse. Para sempre. Este para sempre era afinal possível e exacto. Como o amor ou o ódio que não se cura, como o esquecimento que se intala na mente, como este bem querer que habitava alguns dos seres que lhe partilhavam a vida, e a renovavam por si, na sua vez, até que ela de novo acordasse.

armandina maia

sábado, outubro 07, 2006

fronteiras ao acaso

aos putos, que não sabem onde mora a porta do futuro

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fotografia de Paulo Spranger


Quando perceberam que as casas estavam vazias e que nada sabiam sobre o mundo em volta, começaram a construir uma família, que começava pelos gatos e acabava nos cães. Isto foi quando deram de caras com os reality shows e umas opiniões vagas sobre o estado do país, que parecia ruir como um castelo de cartas.

Todos tinham ouvido falar das conquistas do 25 de abril, mas o desencantamento dos pais mais parecia à beira de um abismo. Aliás, com excepção dos telejornais que passavam nos intervalos do futebol, nenhuma notícia do mundo lhes chegava aos ouvidos.Por isso se fechavam numa mudez difícil de perceber, que dava muito dinheiro a ganhar, entre divãs de psiquiatras, psicólogos e gentes de outros saberes misteriosos.

Como num puzzle, todos estavam no espaço certo: era só preciso saber encaixar as peças no vazio. Vazias. Eram assim todas as casas, sem cheiro de cão nem de comida.Os pais não. Dificilmente seriam vazios, porque lhes tinham dado vida e algum carinho. Muitos, porém, mal disfarçavam como era difícil entender aquele modo de estar na vida, sem “furar” pelo meio dos outros, à procura de uma oportunidade de aparecer na televisão. Dos pais não queriam falar com ninguém, apesar das noites compridas lhes desenharam olheiras antes do tempo. Dos pais não queriam falar com ninguém, apesar de continuarem a desenhá-los como quando eram pequeninos, de mãos dadas e a gostarem muito um do outro. Se discutiam, não ouviam nada, era como se fosse um filme. Tudo ia acabar bem e a casa ficaria em ordem, outra vez, com toda a gente abraçada.

E depois, havia a televisão. Tapava tudo. Todas as bocas, nem se ouvia o silêncio dos garfos que empurravam a comida para as bocas, silenciadas. Às vezes em suspense, quando o jantar tardava e comiam ao som do survivor ou dos ficheiros secretos? Abençoada televisão, que não deixava ninguém falar, e assim notava-se menos aquela saudade dos abraços, dos beijos à hora de ir para a cama.

O que mais os fascinava, eram os filmes que alugavam nos clubes de vídeo, uma espécie de cinema em casa que ninguém parecia proibir. Ficavam horas à roda da ideia, e alugavam-nos mesmo que não os vissem ou os deixassem dias e dias em cima das mesas, sem dono aparente. O que salvava a situação, era aquelas chamadas de atenção do club de vídeo para regularizar a conta.

Nem isso fazia os pais acordar. Ninguém via as beatas no chão, os pratos de plástico queimados, os tapetes esburacados, os pratos no lava-loiça, secos, a deitar por fora, com a máquina de lavar loiça vazia.Se entrasse alguém de repente, haviam de procurar uma desculpa para aquela desordem “a empregada está doente” ou coisa assim. Ninguém podia mostrar uma casa assim aos olhos de estranhos, nem que fosse o homem do gás.

Estranhamente, porém, tocava o despertador e a família disparava inteirinha em fila indiana, a disputar a casa de banho, trocando pelo meio alguns sinais de amor familiar: “despachas-te, ou quê?” “ lá vou eu chegar atrasado” “é sempre a mesma coisa com esta gaja”. Mesmo assim, saíam com a certeza que estavam vivos e inteiros, para depois contar bocadinhos aos amigos, que tinham todos, mais ou menos, a mesma história para contar. Horas a ouvir sermões pelas latas abertas e deixadas ao acaso, pelas embalagens vazias deixadas no frigorífico a dançar sozinhas, num estranho bailado de papel.

E sempre a televisão, aquele aparelho salvador da surdez generalizada, a vomitar informações que todos comentavam como se soubessem a verdade. Pareciam estrelas de cinema, ali, em casa, a dizer toda a verdade sobre o mundo! E eles sem saberem sequer do que se estava para ali a falar. Mais bush menos bush, mais laden menos laden, de que mundo falariam, tão longe daquelas vidas onde se sentavam todos os dias?
Com tantas viagens em família, e tantos países que conheciam, eram forasteiros como os cowboys de outros tempos: passavam, rumo às praias, compravam umas prendinhas na volta, e chegavam com um bronze que fazia morrer de inveja quem estivesse nas proximidades.

Iam e vinham, ilesos pela ignorância, e tolhidos pelo medo que os questionassem: por isso se entretinham a contar histórias banais, que aconteciam a todos. As passagens na fronteira, o tempo da viagem, a comodidade do avião. A viagem era ir e voltar: não acontecia nada pelo meio.

Eram aquelas as fronteiras ao acaso, perdidas num mapa que não conheciam como tinha nascido nem porque estava ali. Delas ficavam só umas tantas fotografias para a colecção familiar, que alguém havia de juntar, mais dia menos dia.


armandina maia

domingo, outubro 01, 2006

carta a um amigo que mora ao lado

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desenho de António Ferra

Amigo, Depois de tanto silêncio, escrevo-te para te contar de um porquê que nem eu sei, acabrunhada como ando, pelo estado do país, pelo desvario do mundo, pela infâmia que se acumula por toda a parte, como se fizesse parte de um ecosistema. Talvez por isto ou porque os anos, de repente, caíram sobre nós como uma coisa inevitável e, apesar da tão falada esperança de vida, começamos a perder a esperança no futuro. Não queremos confessar a ninguém, nem a nós mesmos. Todos esperamos “ver” o milagre acontecer antes do nosso tempo se ter esgotado. Mas também todos sabemos que as guerras vieram para ficar e que os seres humanos continuam sujeitos, como outrora, a condições desumanas e proibidas perante todas as leis de todas as religiões: renovam-se as escravaturas e as servidões e os “salvadores” continuam a torturar prisioneiros, mostrando o seu lado hediondo e grotesco. Pensámos que tinha passado, que tínhamos uma era nova pela frente. Mas há gente vendida e emprestada, como coisas que sabemos que não são. E há gente que vai ficando sempre para trás, sem casa, sem terra, submersa por forças da natureza que os governos centrais se esqueceram de colmatar. É tudo gente, como nós, como tu e eu. Ficam anos a fio, encurralados em jaulas, com os defensores oficiais a proferirem belos discursos nos Parlamentos. E morrem. Já não se contam com exactidão, de tantos que são. Não vivemos no meio deles, é certo, mas vivemos com isto atravessado nos nossos corações e nos sonhos que desenhámos um dia. Vemos como a impunidade galga fronteiras e se instala, ultrapassando todas as regras, como um terreiro deserto onde não mora ninguém. Esta cela para onde nos arremessaram tornou-se fria e estupidamente pequena. E o céu baixou sobre as nossas cabeças. De vez em quando telefonamos aos amigos, a dizer que estamos vivos e que gostamos deles. Mas já não nos vemos com a alegria que morava em nós. Arrastamo-nos para os encontros, os jantares de aniversário, as ocasiões festivas. Mas já não nos encontramos nos cafés, nas esquinas, debaixo das árvores, a tagarelar e a rir de tudo e de nada. Cumprimos os rituais mínimos para sentir a própria pele, mas alguma coisa esfriou dentro de nós, como um peixe morto que continua no aquário. É claro que inventamos as forças necessárias para ir à luta quando é mesmo preciso. Descemos as avenidas, em bandos, até parecemos alegres. Mas depois voltamos ao canto que escolhemos, o nosso canto, de onde só saímos para trabalhar umas horas, iludindo o vazio que se apoderou de nós, como o tal peixe que só ilude o olhar. Estamos baços e lassos, amigo. Por isso te escrevo. Para explicar as minhas ausências inexplicáveis. Para me recuperar e recuperar-te. Ainda nos temos uns aos outros, a lembrar, vigilantes, que a desordem e o caos hão-de ter um fim. E que ninguém pode, por nós ou em nosso nome, continuar a algemar-nos a alegria de existir. Estamos com todos, estamos todos, estamos vivos. Estamos. Abraços. Como sempre. armandina