segunda-feira, maio 15, 2006

guardo tudo o que te pertence: o quarto, o cão, o cheiro do mar

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Receita para um filho (e)terno num amor eterno de mãe

Começa-se a amar logo que abre os olhos, ainda sem nos ver distintamente. Embala-se as vezes que for preciso, até demais, porque filho não tem lei nem regra, só a do amor.
Se for de difícil adormecer, dá-se-lhe colo até adormecermos os dois. Não é aconselhável e dizem que faz mal quando crescerem, mas é o que todas as mães anseiam, para curar as insónias dos filhos.
O amor é dado todos os dias, nas quantidades máximas e mínimas. Pode às vezes parecer demais, porque não conseguimos a distância e a austeridade que os livros dizem serem saudáveis.
E crescem, tão inocentes, que fazem inveja aos anjos, contando tudo o que se passa à volta, chorando e rindo muito, porque são meninos só, mais nada.
Têm grandes olhos que nos vêem em todos os gestos e nos pressentem as dores e a aflição, que farejam como felinos.
Ficam contentes só porque chegamos a casa e sair é uma festa, mesmo que seja só à loja da esquina, porque o mundo é todo ali.
Desconhecem a malícia e a maldade e se mentem é só por pensar que nos fazem felizes a dizer o que nós gostávamos de ouvir.
É nesta parte que crescem mais. Quando os olhamos, vemos-lhes as mãos de criança, roliças e doces, crescerem na ponta de uns braços que parecem navegar por cima das cabeças. É então que passam eles a abraçar-nos e a levantar-nos do chão, para mostrar como são fortes e heróis.
São as suas mãos que agora seguram as nossas. Seria já ridículo passeá-los de mão dada, como dantes.
Mesmo assim, sonhamos que lhes protegemos (ainda) os passos. E habituamo-nos a esperar. Que voltem, que voltem sempre. Do mar, da montanha, do outro lado do mundo, da aventura que não os deixa dormir de ansiedade sonhada. Temos medo por eles, temos medo que vão e sonhamos que não voltam, que ninguém os traz até nós.
E assim crescemos, a habituar-nos à distância que dói no coração das mães, mas que faz os filhos mais fortes e audazes. Por isso amamos e odiamos as viagens que nos condenam às esperas, mas deixamo-los ir, e dizemos-lhes que vão, que nós guardamos tudo o que lhes pertence até voltarem: o quarto, o cão e o cheiro do mar.
Às vezes afastam-se demais, e a espera é mais difícil. Ficamos então a girar pela casa, a limpar o quarto e a olhar as fotografias, como se pudessem falar.
Mas um dia voltam, a mergulhar nos sonhos e na realidade, que é um modo de dizer, na esperança de seguir em frente e serem felizes. Para sempre.
É então que as mães dormem a sono solto, o sono adiado de muitos anos.
Parabéns com beijos, cheios, como sempre foram.

Mãe

sábado, maio 13, 2006

Schostakovitch e Jorge de Sena: "uns cantam e outros choram"

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Aurélio da Paz dos Reis, Porto, Foz do Douro, s/d.

Para o Paulo Carvalho, pela sugestão deste cruzamento "altamente perigoso", como diria o O'Neill


Dmitri Dmitrievich Shostakovich, op. 110, Allegretto do Quarteto de Cordas nº 8 em Dó menor.
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L’ été au Portugal

Que esperar daqui? O que esta gente
não espera porque espera sem esperar?
O que só vida e morte
informes consentidas
em todos se devora e lhes devora as vidas?
O que quais de baratas e a baratas
é o pó de raiva com que se envenenam?

Emigram-se uns para as Europas
e voltam como se eram só mais ricos.
Outros se ficam envergando as opas
de lágrimas de gozo e sarapicos.

Nas serras nuas, nos baldios campos,
nas artes e mesteres que se esvaziam,
resta um relento de lampeiros lampos
espanejando as caudas com que se ataviam.

Que Portugal se espera em Portugal?
Que gente ainda há-de erguer-se desta gente?
Pagam-se impérios como o bem e o mal
- mas com que há-de pagar-se quem se agacha e mente?

Chatins engravatados, pelenguentas fúfias
passam de trombas de automóvel caro.
Soldados, prostitutas, tanto rapaz sem braços
ou sem as pernas – e como cães sem faro
os pilhas poetas se versejam trúfias.

Velhos e novos, moribundos mortos,
se arrastam todos para o nada nulo.
Uns cantam, outros choram, mas tão tortos
que a mesquinhez tresanda ao mais singelo pulo.

Chicote? Bomba? Creolina? A liberdade?
É tarde, e estão contentes de tristeza,
sentados em seu mijo, alimentados
dos ossos e do sangue de quem não se vende.

(Na tarde que anoitece o entardecer nos prende).

Lisboa, Agosto 1971
Jorge de Sena

quinta-feira, maio 11, 2006

De milão com amor, o futuro ao alcance do olhar

Cultura della energia, energia della cultura
1906-2006 Cento anni dalla nascita di Enrico Mattei


Addio Amore cantado por Pueblo unido
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Ainda não me é possível dizer-vos da luz total que inundava a cidade de Milão, onde um sol inédito nesta época trazia as pessoas para a praça.
Muitos muitos jovens, a palrar de tudo e de nada, por baixo os corações faziam sentir aos passantes a luz do futuro que de novo se acende naquele país. Para quem não saiba, a Itália é um país que sabe a cor da resistência, sabe rir-se de si mesma e é extraordinariamente pecadora, o que só lhe fica bem nesta hipocrisia reinante. A política não impede o país de caminhar em frente, mas, mesmo assim, soube-nos bem ver o "eterno" Berlusconi ficar só a mandar no que é dele e deixar respirar de novo quem gosta da vida como ela é: uma dose de futuro ao alcance do olhar.
Por mais que tente, nunca conseguirei contar como "se vira" e se reconstrói e se refaz das feridas este país de gente que se orgulha de ser dali, e por isso parte e re-parte as vezes que for preciso, para chegar outra vez à aura da esperança.
Não é o mar que nos separa da cultura italiana contemporânea: é a língua, os interesses comerciais, de distribuição literária, cinematográfica. Isto para não falar do teatro, dos "espectáculos" sem igual de gente de uma estirpe de que só temos franjas, que põe a nu o gozo e o sofrimento de estarmos vivos e, last but not least, uma rádio que se impõe como uma majestade, sem servilismo, uma contrainformação permanente, que põe em causa cada passo em falso da política.
Gostava muito de ter trazido comigo esta capacidade secular de nos rirmos e dizermos não sem amargura e sem a mesquinhez que nos é proposta a cada passo, em cima de um bandeja onde a ignorância é o prato pricipal e, mesmo assim, poucos comem, alguns debicam e os outros ficam nas esquinas à espera de vez.
Mas não vamos desistir: é por isso, também, que estes blogs nos acompanham, como uma verdadeira luz de presença que sabemos que está do nosso lado. obrigada pela companhia.
armandina maia, 11 de Maio de 2006
Nota:
do congresso vale muito a pena falar, mas estou a preparar uma surpresa, um dia destes.

domingo, maio 07, 2006

contigo na moldura, serena e cálida



Finalmente, depois de todos estes anos, pus o teu retrato na moldura. Era uma moldura angular, quase imponente, de madeira polida e firme.
Olhei para o retrato e para a moldura e descobri que combinavam. Meti-te lá dentro, e vi-te no retrato.
Depois destes anos todos, consegui por-me fora, desatar a correr. Contigo na moldura, serena e cálida. Assim, de fora, te falo agora, a ver-te com surpresa, para sempre na moldura.
Ainda não sei se me foste boa ou má, ainda não descobri a manta que nos agasalhou. Sei que o teu silêncio me fez renascer de não o querer. De não me querer acasalar naquele choro manso que fazia ranger o espaço e nunca mais deixava as aves voarem do ninho.
Dorme bem, eu tratarei de limpar o pó da moldura.

armandina maia

quarta-feira, maio 03, 2006

a viagem da minha vida

Alberto Giacometti


Carlos Paredes, Variações em ré maior
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Vivi quase nove anos neste país, uma segunda pátria, se é possível o sonho de repartir o indivisível. estarei num Congresso dedicado a Eugénio de Andrade e a cultura europeia.
Quando voltar, retomo os meus posts, o meu blog que tanto me anima pelos encontros de saberes e, sobretudo, de memórias, já que o esquecimento, como eu disse ontem a um conhecido, é a pior de todas as mortes.
deixo-vos com um excerto do trabalho que vou apresentar:

(...) Eugénio de Andrade erigiu e conservou um património de palavras que passaram a pertencer-lhe, edificando num terreno aparentemente árido, uma oficina de poesia cuja fertilidade ainda hoje ecoa em muita da nova produção poética portuguesa e não só. Referimo-nos, entre outros, à influência nos Países de Língua Oficial Portuguesa (...).
Em cada gesto da escrita de Eugénio de Andrade, a palavra assume-se como um compromisso, tentando suster-se num difícil espaço, em que é o que parece ser, mas é também uma decisão, um arrojo que a arranca da trivialidade para fazer planar, sendo simultaneamente uma memória e a sua projecção num espaço futuro.
Por isso se respira nestas palavras como num templo, “o espaço cheio e como que sagrado” de que fala Óscar Lopes, como se a poesia de Eugénio de Andrade calasse com ela uma nobreza funda que não lhe permite mostrar-se demais. Esta condição de ser parco a “redução ao osso”, nas palavras e no silêncio que as rodeia cria a clareira, o espaço em volta que se alarga e afasta, como disse Rilke. Por isso, desde sempre, Eugénio de Andrade caminha pelos seus próprios passos, como se obedecesse a uma lição que pertence a todos os homens da terra. Esta «pouquidão» acabará por nos trazer um constante efeito de deslumbramento, por se manter assim, intacto, perene, como se viajasse de e para a eternidade:

Era um lugar onde só
a poesia
me podia ter levado –
lugar de morte, a luz
roída,
rala.
Até a minguada
romãzeira
era de pedra.
O vento
acrescentara-lhe a poeira”.

Eugénio de Andrade, "Tebas" Escrita da Terra

segunda-feira, maio 01, 2006

Cabo Verde canta a independencia

www.afromix.org (interior da prisão do Tarrafal)


Finaçon cantada por Mantchontcha (autor Zeca di Nha Reinalda)
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(...) confinados à voracidade reclusa da miragem
das noites da Assomada
sob o monótono e aprisionado mar
do tarrafal de santiago


José Luis Hopffer Almada

Abril em Maio: as canções das liberdades devolvidas


adangel.weblog.com.pt/ arquivo/2003_06.html


Guiné Bissau, Pastro cantado por Netos do N'Gumbe (tradicional)
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domingo, abril 30, 2006

Indépendencia: outras canções de abril




Imuna Iami, cantado pelo Grupo Jovens do Hungu, (autor: Silva F. Paixão)
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Jorge de Sena: não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade


Moçambique, Nweti, cantado por Amoya, (autores: Conceição Daniel e Milagre Danga)
1975-1995- Indépendencia
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Cantiga de Abril

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Jorge de Sena, 1974

sábado, abril 29, 2006

Affonso Romano de Sant'Anna: uma voz inteira de abril feita

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Villa Lobos
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Fragmento 3

Sei que há outras pátrias.
Mas mato o touro nesta Espanha,
planto o lodo neste Nilo,
caço o almoço nesta Zâmbia,
me batizo neste Ganges,
vivo eterno em meu Nepal.

Esta é a rua em que brinquei,
a bola de meia que chutei,
a cabra-cega que encontrei,
o passa-anel que repassei,
a carniça que pulei.

Este é o país que pude
que me deram
e ao que me dei,
e é possível que por ele, imerecido,
- ainda morrerei.


Affonso Romano de Sant'Anna, Que país é este?

quarta-feira, abril 26, 2006

A lha sem 25 de Abril




Mozart, Gnossienne
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Alberto João Jardim não é inimputável, não é um jumento que zurra desabrido, não é um matóide inculpável, um oligofrénico, uma asneira em forma de humanóide, um erro hilariante da natureza.Alberto João Jardim é um infame sem remissão, e o poder absoluto de que dispõe faz com que proceda como um canalha, a merecer adequado correctivo. (...) Não há que sair das definições. Perante os factos, as tímidas rebatidas ao que ele disse pertencem aos domínios das amenidades. Jardim tem insultado Presidentes da República, primeiros-ministros, representantes da República na ilha, ministros e outros altos dignitários da nação. Ninguém lhe aplica o Código Penal e os processos decorrentes de, amiúde, ele tripudiar sobre a Constituição. Os barões do PSD babam-se, os do PS balbuciam frivolidades, os do CDS estremecem, o PCP não utiliza os meios legais, disponentes em assuntos deste jaez e estilo. Desculpam-no com a frioleira de que não está sóbrio. Nunca está sóbrio? O espantoso de isto tudo é que muitos daqueles pelo Jardim periodicamente insultados, injuriados e caluniados apertam-lhe a mão, por exemplo, nas reuniões do Conselho de Estado. Temem-no, esta é a verdade. De contrário, o que ele tem dito, feito e cometido não ficaria sem a punição que a natureza sórdida dos factos exige. Velada ou declaradamente, costuma ameaçar com a secessão da ilha. Vicente Jorge Silva já o escreveu: que se faça um referendo, ver-se-á quem perde. A vergonha que nos atinge não o envolve porque o homenzinho é o que é: um despudorado, um sem-vergonha da pior espécie. A cobardia do silêncio cúmplice atingiu níveis inimagináveis. Não pertenço a esse grupo.



Armando Baptista Bastos

segunda-feira, abril 24, 2006

Abrir abril a pele marcada pela cor da liberdade

imagem criada por Alexandra Veiga


José Afonso, "Grândola"
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Zeca,

Andamos longe da Grândola já mal sabemos a letra mas temos sempre a janela de abril nas nossas vozes em que te cantámos e nos cantámos com as manhãs a florir sem orvalho nem bruma, manhãs de sol já alto que a cor das noites passadas tornava mais azuis e tudo floria vermelho papoilas eram papoilas ou cravos vermelhos não brancos como agora se tem feito em cerimónias fúnebras a fingir que é abril.
Andamos sem cravos na lapela eram tão lindos os cravos nas bocas que pareciam de todos que se queriam beijar de fraternos que éramos as mulheres opulentas do Portugal que vinha de trás, redondas cheias e lindas a beijar os pés da liberdade nos rostos dos soldados que sorriam como se fossem nossos filhos e estivéssemos na praça a festejar o dia a noite o riso que se escondera no medo das noites atrás das cortinas tanta gente tantos irmãos tantos homens a morrer num corredor da morte morno e manso.
Já não morremos assim morremos de doenças globais e modernas o stress o avc o enfarte o cancro a surménage mas morremos cada vez mais de esquecimento daquela cor cada vez mais desbotada que se apodera de nós a caminho da casa das férias a correr das pausas que não temos do sol que não vemos da orla do mar que não sentimos sob os pés e queremos viver assim esquecidos de nós tão esquecidos que os votos escasseiam e os homens bons são muito poucos para trazer à malta o que faz mesmo falta um abrigo para os que dormem na rua sem querer uma manta de carícias para os meninos sem condição que são tantos e o tempo e o tempo e o tempo que não temos a gente tem que se ver tem mesmo que se ver tem mesmo tem.
Andamos às voltas com o fmi apesar do zé mário ter dito o que disse com o medo a cortar a luz ao futuro que queremos deixar aos putos perdidos nas estradas de alcatrão nos empregos desempregados à espera do fundo a fazer de conta que são gente num país que não tem lugar para velhos nem para putos as estatísticas dizem que pesam muito o orçamento é tramado anda a reboque dos mimos com que os políticos se alimentam uma fauna desocupada ociosa e servil que faria envergonhar o o’neill por ainda termos esta feira cabisbaixa por país.
Mas há um abril por abrir e um país por parir digo-te eu que tinha a minha filha a dançar-me no ventre quando cresci naquela manhã e vi até morrer este abril e os campos são verdes e não faremos mais recados às bruxas o nosso pensamento é maior que a dureza dos dias incertos como alçapões ninguém nos lava as canções com lágrimas o cortinado roxo que nos morde o coração mas ninguém nos tira a mariazinha com os olhos no mar. Somos cinco mais cinco mais cinco até sermos múltiplos de cinco que já não se contam pelos dedos contam-se pelos olhos pela palavra pelo gesto fraterno e uno que ficou debaixo da nossa pele agora para sempre marcada pela cor vermelha da liberdade do nascer e do morrer. Para sempre.


lisboa, 24 de abril de 2006
Maria Armandina maia

sábado, abril 22, 2006

Requiem por um rei sem reino


http://pimba-club.deviantart.com/

Leio, releio os exegetas.
Quanto mais leio, descreio. Insisto?
Deve ser um mal do século
- se não for um mal de vista.

Affonso Romano de Santana, Que País é este?


A flor(a) do "Faroeste da rede"

Fiquei a saber pelo artigo do Pacheco Pereira que as caixas de comentários estão cheias de arruaceiros com fins ignóbeis, capazes de matar a mãe para aparecer no blogue. Conheço e frequento alguns – poucos – blogues que me interessam porque mostram talento, criatividade e sentido de humor.
Sempre defendi que a verdadeira cultura deve ter a capacidade de passar para as mãos dos outros o saber que o poder conservou como território sagrado, alimentando a ignorância do povo. Só se reina nos reinos da estupidez.

Por isso, por incrível que pareça, é nesta “gentinha” sem qualidades que reside, também, o novo. Para mim, os intriguistas, os bobos da corte, os pimbas, nunca ocuparam muito do meu espaço, pela simples razão de que eu o controlo.

Aqui ficam alguns temas muito interesssantes para investigar, seriamente: o que leva uma criatura como qualquer outra a tornar-se autor de um blogue; que mecanismos, perversos ou não, esconde esta escolha; (mas, e sobretudo) o que ganha com isso, já que ou “donos” dos blogues, os que engordam os sitemeters, são sempre pessoas (de mérito ou não), mediáticas e até famosas em certos “círculos”.

Incomoda que muita gente passe horas diante de um écrã vazio a tentar torná-lo seu?
Todo o artigo de P.P. sobre os blogues remete para um campo semântico que nos leva a pensar que há uma conjura entre os autores de blogues e os seus fequentadores. O blogue em si, como instrumento de comunicação, não merece uma análise digna desse nome: P.P. não ultrapassa a soleira da donzela ofendida na sua virtude, numa acusação contínua e reiterada, que peca por omissão dos aspectos gratificantes dos pequenos círculos de comunicação, da aprendizagem não programada, do estímulo da curiosidade e descoberta da recolha e partilha de informação, do reconhecimento e satisfação narcísica no seu melhor sentido.

Sobretudo os leitores incautos dos “posts” jornalísticos de P.P., que não frequentam os blogues, imaginam um bacanal de gente sem qualidades nem escrúpulos a assaltar as caixas de correio para alcançar a fama.
A realidade que eu conheço anda longe destas fantasias: os blogues têm meia dúzia de fiéis, e dão-se por contentes com comentários dignos desse nome, sem fofocas, insinuações nem maledicências.

Claro que gostam de dar uns palpites sobre os destinos do país que se esbanja entre as vergonhas várias sem que se veja onde pára o bem da nação.
Criticar é um acto saudável, que tem a vantagem de ser gratuito, não ser pecado, não fazer engordar e que, ainda por cima, vem na melhor tradição do escárnio e maldizer na cultura portuguesa.

Escrevam, pois, o que quiserem nas caixas de correio: só lá vai quem quer e só lá fica quem for consentido.
E já agora com uma pontinha de humor. É que a seriedade a mais, dita de olhos baixos que não olham os outros, pode parecer muito bonita mas é muito solitária. Para não dizer sozinha e triste.

Nota importante: eu não tenho um blog famoso, não frequento caixas de correio famosas e não me sento em (famosas?) quadraturas do círculo...

Maria Armandina Maia

segunda-feira, abril 17, 2006

Paulo Teixeira: o futuro, sangue mais limpo correndo pela carne de quem nasce

http://www.olhares.com/



Marlene Dietrich, "Das alte lied"

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Elegia
O futuro não o guardamos em casa, perde-se
disperso entre a meia-noite e a folhagem. Nu,
exposto como uma província além da trincheira
das janelas, fala-nos do ouro puído destes dias,
desse sentido ganho nas coisas que se perdem,
salivando a passagem das horas, sustendo
contra a dor o dreno das nossas vidas.

Lembramos os pequenos oráculos da infância,
os sonhos que são memórias já na sua escura
torre do tombo, ao intimarmos, no seu sossego
povoado, a evasiva alma do passado. Buscamos
no ontem a sua recompensa, sabendo que não
há outro homem para o homem deste lugar,

sangue mais limpo correndo pela carne
de quem nasce, a sua genuína morte pastoral.
Eis chegado o tempo da ceifa, dos presságios
de longe trazidos no rumor das trompas outonais.
As palavras, os trémulos ramos das palavras,
pressentem o espírito da revelação em cada coisa.

Assim choramos a festa última dos instantes,
dias de uma neblina fiel cobrem-nos os passos,
obscurecendo essas mãos que gostariam de subir
ao céu como escadas. Se conhecesse a linguagem
fácil do tributo cantaria a queda adivinhada
a tempo de o poema terminar na forma de uma elegia.


Paulo Teixeira

Elegie

Die Zukunft bewahren wir nicht zu Hause auf, sie geht verloren,
ausgestreut zwischen Mitternacht und Laubwerk. Nackt
ausgestellt wie eine Provinz jenseits der Reihe
der Fenster, erzãhlt sie uns vom abgenutzten Gold dieser Tage,
von diesem in den verlorengehenden Dingen gewonnenen Gefühl,
wenn wir das Vergehen der Zeit einspeicheln und das Abzugsrohr
unserer Leben gegen den Schmerz stemmen.

Wir denken an die kleinen Orakel der Kindheit,
die in ihrem dunklen Archivturm zu Erinnerung
geronnenen Trãume, wenn wir in der bevõlkerten Stille dort
die flüchtende Seele der Vergangenheit herbeizitieren. Wir suchen
im Gestern die Belohnung und wissen doch, daB
der Mensch an diesem Platz kein anderer sein kann,

das reinere Blut strõmt durch das Fleisch dessen,
der geboren wird sein wahrhaft pastoraler Tod.
Da naht die Zeit zur Ernte, Zeit der Vorzeichen,
die im Gemurmel herbstlicher Hornklãnge von weither gebracht werden.
Die Worte, die zitternde Zweige der Worte
ahnen bereits den Geist der Offenbarung in jedem Ding.

So beweinen wir das letzte Fest der Augenblicke,
treue Nebeltage bedecken unsere Schritte
und verdunkeln diese Hãnde, die treppengleich
zum Himmel streben. Wãre mir die leichte Sprache
des Opfers vertraut, besãnge ich den erahnten Untergang,
daB das Gedicht in Form einer Elegie endete.

Paulo Teixeira
Tradução: Niki Graça



sexta-feira, abril 14, 2006

Luis de Góngora: !Que se nos va la Pascua, mozas!

http://attambur.com/Service/Geral/Contactos.htm



Música e interpretação de Paco Ibañez
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!QUE SE NOS VA LA PASCUA, MOZAS!

Mozuelas de mi barrio,
loquillas y confiadas,
mira no os engalle el tempo
la edad y la confianza.
No os dejéis lisonjear
de la juventud lozana,
porque de caducas flores
teje el tempo sus guirnaldas.
!Que se nos va la Pascua, mozas.
que se nos va la Pascua!
Yo sé de una buena vieja
que fue un tiempo rubia y zarca,
y que al presente le cuesta
harto caro el ver su cara;
porque su bruñida frente
y sus mejillas se hallan
más que roquete de obispo
encogidas y arrugadas.
iQue se nos va la Pascua, mozas,
que se nos va la Pascua!
Y sé de otra buena vieja,
que un diente que le quedaba
se lo dejó este otro día
sepultado en unas matas;
y con lágrimas le dice:
«Diente mio de mi alma,
yo sé cuánto fuisteis perla,
aunque ahora no sois nada»
Que se nos va la Pascua, mozas,
que se nos va la Pascua!
Por eso, mozuelas locas.
antes que la edad avara
el rubio cabello de oro
convierta en luciente plata,
quered cuando sois queridas,
amad cuando sois amadas;
mirad, bobas, que detrás
se pinta la ocasión calva,
!Que se nos va la Pascua, mozas,
que se nos va la Pascua!

Luis de Góndora (1561-1627)

terça-feira, abril 11, 2006

Afinal era tão pequeno.....

CAPÍTULO SEGUNDO



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"Addio Lugano Bella", por Pueblo Unido


VIVA A ITÁLIA SEM A "FORZA ITALIA"!!!

Falcone e Borsellino...a Itália "recupera" duas mortes tão vis quanto heróicas

As autoridades italianas anunciaram esta terça-feira a prisão do mais alto dirigente da máfia siciliana, ao cabo de 42 anos de fuga. De acordo com magistrados da direcção regional anti-máfia local citados pela agência italiana Ansa, Bernardo Provenzano, de 73 anos, foi preso na região onde nasceu, Corleone, nas proximidades de Palermo, na Sícilia. Conhecido como o «fantasma de Corleone», o mais homem mais procurado de Itália nasceu em Janeiro de 1943, e cuja a última fotografia conhecida datava de 1959, tinha passado à clandestinidade em 1963. O actual chefe supremo da máfia siciliana tinha assumido o seu posto após a prisão do seu antecessor, Salvatore 'Totó' Riina, em 1993. O antecessor de Provenzano à frente da máfia na Sicília tinha sido responsável pela morte dos juízes Giovanni Falcone e Paolo Borsellino.


(Extraído das notícias TSF on-line)


CAPÍTULO PRIMEIRO





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"Italia Bella mostrati gentile", por Pueblo Unido

segunda-feira, abril 10, 2006

Eugénio de Andrade: mais do que destas casas e destas ruas, sou das dunas de Fão

Fotografia de Pedro Matos



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Mozart, Sonata para piano em ré maior 576
Friedrich Gulda, piano


A casa ficava num dos extremos do terraço, fechado por muros baixos de um lado, o outro dava para outros terraços; ao fundo meia dúzia de casas, e o Cávado, com um barquito que nos levava à outra margem, em quatro ou cinco remadas. Também da janela do meu quarto se avistava, mal abria as persianas, aquele amplo corpo de água e o pequeno areal, antes de tudo se transformar em bosque. Os muros estavam cobertos de madressilva, que desciam e afogavam o azul das hidrângeas. (...) Naqueles areais, à beira daquele mar, come­çava o paraíso - um espaço sem fim de areia e água, com dunas altas, onde além de nós só havia gaivotas e algum sargaceiro distante. Se alguém quiser procurar o Ernesto terá de o fazer nesta praia, ao longo deste mar. Procurem-no entre os juncos e os cardos das dunas. Aqui passou dias e dias ao sol, os olhos perdi­dos nas páginas frementes do Lawrence, do Gide, do Whitman, do Frazer, só os levantando de vez em quan­do para olhar a franja de espuma ou chamar a nossa atenção para uma linha, um verso. Procurem-no aqui, e se não o encontrarem não o busquem noutro sítio, porque se não estiver neste areal então é porque se fez orvalho ou poeira de longínqua estrela.

Eugénio de Andrade, “Com o Ernesto, nas Dunas de Fão”, À Sombra da Memória

sábado, abril 08, 2006

Natália Correia:que margens têm os rios/para além das suas margens?

Poema destinado a haver domingo

Bastam-me as cinco pontas de uma estrela
E a cor dum navio em movimento
E como ave, ficar parada a vê-la
E como flor, qualquer odor no vento.

Basta-me a lua ter aqui deixado
Um luminoso fio de cabelo
Para levar o céu todo enrolado
Na discreta ambição do meu novelo.

Só há espigas a crescer comigo
Numa seara para passear a pé
Esta distância achada pelo trigo
Que me dá só o pão daquilo que é.

Deixem ao dia a cama de um domingo
Para deitar um lírio que lhe sobre.
E a tarde cor-de-rosa de um flamingo
Seja o tecto da casa que me cobre

Baste o que o tempo traz na sua anilha
Como uma rosa traz Abril no seio.
E que o mar dê o fruto duma ilha
Onde o Amor por fim tenha recreio.


Natália Correia, Poesia Completa, Dom Quixote, 1999

http://www.leme.pt/biografias/portugal/letras/nataliacorreia.html
http://members.tripod.com/migo1/aut_natalia.html
http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/natalia_correia/poetas_nataliacorreia01.htm
http://www.lumiarte.com/luardeoutono/nataliacorreia.html
http://www.revista.agulha.nom.br/nc.html
http://www.viaoceanica.com/canais/poesia/ler.php?id=53
http://lusomatria.com/noticias.php?noticia=136
http://www.triplov.com/poesia/natalia_correia/index.htm
http://fumacas.weblog.com.pt/arquivo/083511.html
http://www.nescritas.nletras.com/poetasapaixonados/denataliac/

Mário de Andrade: nós temos que dar uma alma ao Brasil

Mário de Andrade por Lasar Segal


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Heitor Villa Lobos


Toda a minha obra é transitória e caduca, eu sei. E eu quero que ela seja transitória. Com a inteligência não pequena que Deus me deu e com os meus estudos, tenho a certeza de que eu poderia fazer uma obra mais ou menos duradoura. Mas que me importa a eternidade entre os homens da Terra e a celebridade? Mando-as à merda. Eu não amo o Brasil espiritualmente mais que a França ou a Conchinchina. Mas é no Brasil que me acontece viver e agora só no Brasil eu penso e por ele tudo sacrifiquei. A língua que escrevo, as ilusões que prezo, os modernismos que faço são pro Brasil. E isso nem sei se tem mérito porque me dá felicidade, que é a minha razão de ser da vida. Foi preciso coragem, confesso, porque as vaidades são muitas. Mas a gente tem a propriedade de substituir uma vaidade por outra. Foi o que eu fiz. A minha vaidade hoje é de ser transitório. Estralhaço a minha obra. Escrevo língua imbecil, penso ingênuo, só pra chamar a atenção dos mais fortes do que eu pra este monstro mole e indeciso ainda que é o Brasil. Os gênios nacionais não são de geração espontânea. Eles nascem porque um amontoado de sacrifícios humanos anteriores lhes preparou a altitude necessária de onde podem descortinar e revelar uma nação.


Mário de Andrade, "Carta a Drummond", S. Paulo, 10-XI-1924, in Carta aos Mineiros,
org. Eneida Maria de Souza e Paulo Schmidt, 1997.

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