quarta-feira, abril 05, 2006

Emanuel Félix: (d)a poesia amada por um homem

B. Berenika


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Mozart, piano concert n.23 Herbert von Karajan


Five O’clock Tear

Coisa tão triste aqui esta mulher
com seus dedos pousados no deserto dos joelhos

com seus olhos voando devagar sobre a mesa

para pousar no talher


Coisa mais triste o seu vaivém macio

p’ra não amachucar uma invisível flora

que cresce na penumbra

dos velhos corredores desta casa onde mora


Que triste o seu entrar de novo nesta sala

que triste a sua chávena

e o gesto de pegá-la


E que triste e que triste a cadeira amarela
de onde se ergue um sossego um sossego infinito

que é apenas de vê-la

e por isso esquisito


E que tristes de súbito os seus pés nos sapatos

seus seios seus cabelos e seu corpo inclinado

o álbum a mesinha as manchas dos retratos


E que infinitamente triste triste

o selo do silêncio

do silêncio colado ao papel das paredes

da sala digo cela

em que comigo a vedes


Mas que infinitamente ainda mais triste triste

a chávena pousada

e o olhar confortando uma flor já esquecida

do sol

do ar

lá de fora

(da vida)

numa jarra parada.

Emanuel Félix


http://alfabeto.blogspot.com/2005/01/emanuel-flix.html

http://gloriafacil.blogspot.com/2004/02/emanuel-flix-1932-2004.html



terça-feira, abril 04, 2006

Ana Hatherly: as fronteiras entre as palavras são todas ténues e delicadas

Ana Hatherly
A Mentira é a recriação de uma Verdade. O mentidor cria ou recria. Ou recreia. A fronteira entre estas duas palavras é ténue e delicada. Mas as fronteiras entre as palavras são todas ténues e delicadas. Entre a recriação e o recreio assenta todo o jogo. O que não quer dizer que o jogo resulta sempre. Resulte seja o que for ou do que for. A Ambiguidade é a Arte do Suspenso. Tudo o que está suspenso suspende ou equilibra. Ou instabiliza. Mas tudo é instável ou está suspenso. Pelo menos ainda. Ainda é uma questão de tempo. Tudo depende da noção de tempo ou duração ou extensão. A aceleração do tempo pode traduzir-se pela imobilidade pois que a imobilidade pode traduzir-se por um máximo de aceleração ou um mínimo de extensão: aceleração tão grande que já não se veja o movimento ou o espaço ou a duração. Tudo está sempre a destruir tudo. Ou qualquer coisa. Ou alguém. Mas estamos sempre a destruir tudo ou qualquer coisa. Ou alguém. Os construtores demolem. No lugar onde estava o sopro, pormos pedras ou palavras: sinónimo de construção. Ou destruição. Ou acção.


Ana Hatherly, O Mestre

http://www.mulheres-ps20.ipp.pt/Ana_Hatherly.htm

http://www.lumiarte.com/luardeoutono/anahatherly.html

http://www.revista.agulha.nom.br/ag35hatherly.htm

http://www.triplov.com/alquimias/hatherly.htm

http://www.citador.pt








domingo, abril 02, 2006

Eduardo Pitta: no lajedo da vigília

www.aransite.com.ar


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Acolhia-se aos destroços
da velha casa, onde não encontrou
nenhuma das antigas pegadas,
entre si confundidas na sombra
da pedra, nos reflexos do lago, no
lajedo da vigília.

A nenhum deles encontraria -
perdidos entre Cartago e a Palestina
distantes do absinto, dos dias de fox
hunting, das leituras de algum árcade
pedante e apostólico. Estava só. Era no tempo
da canalha.

Para trás ficavam as capelas imperfeitas
e a tranquila majestade dos olmos.
Amara-os aos dois no intervalo
um do outro, na iminência sempre de um naufrágio
redentor.
E agora tinha as mãos vazias.

[Brideshead Revisited.]

Eduardo Pitta, A Linguagem da Desordem

daliteratura.blogspot.com/

nescritas.nletras.com/poetasapaixonados/listapoesias2/archives/2039_11.html

p
enclube.no.sapo.pt/pen_portugues/socios/eduardo_pitta.htm

antologiadoesquecimento.blogspot.com

quinta-feira, março 30, 2006

da janela, as árvores filtravam a humana imperfeição da cidade


Agora, que a cortina protectora desapareceu, vamos continuar o caminho que ontem começámos, a saber:
1. Apurar os responsáveis (isto é, quem pôs a cruz no lugar da assinatura)
2. Indagar se há um PLANO que tenha levado a esta decisão e até onde ele vai, isto é, quantas mais vão "cair".
3. Determinar quem foi ouvido para a mesma (moradores, assembleias municipais, etc).
4. Enviar a todas as autoridades uma descrição minuciosa do processo sumário que, em pouco mais de duas manhãs, "limpou" seis árvores cheias de vida.
5. Elaborar um documento para subscrição de assinaturas, seguindo os bons e reconfortantes conselhos dos Dias com Árvores.
6. Bombardear com telefonemas e faxs a Junta de Freguesia, a Câmara Municipal de Lisboa, etc.
E ainda:
Contar as árvores que AINDA estão de pé. É uma alameda inteira que dá a este universo algum sentido, no meio de prédios atordoados pela altura.
E, porque não seguir a sugestão da Margarida:
"Se ao menos tivessem sido avisados, podiam sempre fazer com a Beatriz, de «A Beatriz e o Plátano», da Ilse Losa. Marcou a minha infância, a determinação da rapariga que passa a noite junto da árvore em frente à sua casa, a fim de evitar o seu abatimento no dia seguinte. E consegue."
Pelo menos em sonhos, ajudar-nos-ia a vencer o medo de acordar e dar com a rua deserta, prédios, muito betão e carros. Sem sombra de árvores, sem sombra dos pássaros que pousam nas árvores, sem sombra de nada.
Obrigado a todos. Continuam a aceitar-se sugestões
Armandina Maia

ser solidário*

* Com o obrigada do Funcionamento e da Luz de Presença

"As Árvores Cortadas"

Deceparam as árvores da rua!
Sem troncos hirtos na calçada fria,
a rua fica inexpressiva e nua;
fica uma rua sem fisionomia.

0 sol, com sua rústica bondade,
aquece até ferir, até matar.
E a rua, a rir sem personalidade,
não dá mais sombras aos que não têm lar.

As árvores, ao vento desgrenhadas,
não lastimam a peia das raízes:
Olvidam suas dores, concentradas
no sofrimento de outros infelizes.

Eu penso, quando à frente dos casais
vem sentar-se um mendigo meio-morto,
que uma fronde se inclina um pouco mais,
para lhe dar mais sombra e mais conforto.

Sem elas, fica a triste perspectiva
de uns muros esfolados, muito antigos,
que se unem na distância inexpressiva
como se unem dois trôpegos mendigos.

Quando vier com o seu farnel de lona,
arrimar-se à sua árvore querida,
o ceguinho de gaita e de sanfona
será capaz de maldizer a vida.

E aquela magra e tremula viúva
que anda a esmolar com filhos seminus,
quando o tempo mudar, chegando a chuva,
dirá que dela se esqueceu Jesus!...

Meu Deus, seja qual for o meu destino,
mesmo que a dor meu coração destrua,
não me faças traidor, nem assassino,
nem cortador de árvores da rua!

por Guiuseppe Artidoro Ghiaroni (in Antologia da Nova Poesia Brasileira J. G. de Araujo Jorge - 1a ed. 1948via Blog da Sabedoria)

a paisagem/ é um deus/ sem árvores*

* Luiza Neto Jorge

A casa onde vivo foi meticulosamente escolhida entre duas frentes. As traseiras eram, na verdade, a sua grande frente: tinham uma pracinha em lugar das famosas pracetas de betão, e espaços ajardinados, orlados, como preciosas pérolas, por árvores de vários tipos, frondosas, que nos criavam a sombra.

Em frente de casa, pode-se ter um terreno baldio, os telhados da cidade, as janelas de vizinhos coladas às nossas, a vastidão do mar. Ou, simplesmente, uma fiada de copas que dá sentido à curva da estrada.

Esta manhã descobri que OITO daquelas árvores iriam ser cortadas, "para nivelar o passeio". Assim disse o homem, distraído, como se palitasse os dentes, a mostrar, com uma ponta de orgulho, que a sugestão fora dele e o Presidente da Junta "disse que sim".
Telefonei a amigos e até aos "Verdes"!!!, tudo isto a caminho do trabalho, a congeminar uma revolução por esta ignorância que não é crime nem nada. A Srª dos "Verdes" disse-me que estava a acontecer com os choupos (são as OITO árvores), porque são árvores "com pouco tempo de vida" (20, 30 anos).
Perguntei-lhe quem era responsável por terem posto árvores com prazo de vida, 20, 30 anos, para um dia morrerem precocemente, no passeio da rua. Ela foi falando, muito, de que essas árvores adoecem, têm os troncos ocos, etc, etc. Para justificar a militância do nome do Partido, incitou-me a vigiar atentamente se "eles" lá punham outras árvores, que muittas vezes prometiam e nada aconteciam, blá, blá. Enfim, coisas de quem (já) fala com sabor de paleio parlamentar (enquanto ela falava, eu ia pensando no poder redentor de alguns blogs em casos como este..

Quanto custa matar uma árvore que levou 30 anos a crescer? Quanto se ganha em matá-la? (quantos negócios se farão com o tira e põe?...)

Não sei, mas acho que não é só culpa do homem que parecia palitar os dentes. Sei que a casa ficou triste de um dos lados, onde, despudoradamente, me puseram um barracão na orla que era o meu mar possível.
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Ainda lá estão, as árvores cortadas, mas rente ao chão. Um depósito de madeira morta, com troncos bem vivos. Não foram sequer recolhidas: foram deixadas, assim, sem nenhum pudor.
Neste país que rima com Abril, à beira de um choque tecnológico que vai salvar o país da miséria, qualquer presidente de Junta pode mandar abater árvores...

Eram só choupos, mas eram os choupos da nossa casa.
P.S. Aceitam-se mensagens de condolências ou outras.

Maria Armandina Maia

domingo, março 26, 2006

Eugénio de Andrade: uma casa que fosse um areal



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Música de Heitor Villa-Lobos e Francisco Mignone, executada ao piano por Joel Bello Soares


O LUGAR DA CASA

Uma casa que fosse um areal
deserto; que nem casa fosse;
só um lugar
onde o lume foi aceso, e à sua roda
se sentou a alegria; e aqueceu
as mãos; e partiu porque tinha
um destino; coisa simples
e pouca, mas destino:
crescer como árvore, resistir
ao vento, ao rigor da invernia,
e certa manhã sentir os passos
de abril
ou, quem sabe?, a floração
dos ramos, que pareciam
secos, e de novo estremecem
com o repentino canto da cotovia.

Eugénio de Andrade, o Sal da Língua

http://www.fundacaoeugenioandrade.pt/

sábado, março 25, 2006

hora de mulher: mercedes sousa canta alfonsina e o mar

Em homenagem à Natércia, e ao Bando, que fica com menos um lugar à volta da mesa.

Armandina Maia




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Juan Manuel Serrat e Alfonsina Storni, lugares primeiros da minha construção

lia.net




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Diante do mar

Oh, mar, enorme mar, coração feroz
de ritmo desigual, coração mau,
eu sou mais tenra que esse pobre pau
que, prisioneiro, apodrece nas tuas vagas.

Oh, mar, dá-me a tua cólera tremenda,
eu passei a vida a perdoar,
porque entendia, mar, eu me fui dando:
"Piedade, piedade para o que mais ofenda".

Vulgaridade, vulgaridade que me acossa.
Ah, compraram-me a cidade e o homem.
Faz-me ter a tua cólera sem nome:
já me cansa esta missão de rosa.

Vês o vulgar? Esse vulgar faz-me pena,
falta-me o ar e onde falta fico.
Quem me dera não compreender, mas não posso:
é a vulgaridade que me envenena.

Empobreci porque entender aflige,
empobreci porque entender sufoca,
abençoada seja a força da rocha!
Eu tenho o coração como a espuma.

Mar, eu sonhava ser como tu és,
além nas tardes em que a minha vida
sob as horas cálidas se abria...
Ah, eu sonhava ser como tu és.

Olha para mim, aqui, pequena, miserável,
com toda a dor que me vence, com o sonho todos;
mar, dá-me, dá-me o inefável empenho
de tornar-me soberba, inacessível.

Dá-me o teu sal, o teu iodo, a tua ferocidade,
Ar do mar!... Oh, tempestade! Oh, enfado!
Pobre de mim, sou um recife
E morro, mar, sucumbo na minha pobreza.

E a minha alma é como o mar, é isso,
ah, a cidade apodrece-a engana-a;
pequena vida que dor provoca,
quem me dera libertar-me do seu peso!

Que voe o meu empenho, que voe a minha esperança...
A minha vida deve ter sido horrível,
deve ter sido uma artéria incontível
e é apenas cicatriz que sempre dói.

Alfonsina Storni

NOTA: Peço a quem me puder ajudar que me explique o déficit de qualidade na postagem da música. Obrigada.

quarta-feira, março 22, 2006

Luiza Neto Jorge: toda a música para sempre

Edward Hopper 1932 http://www.hopper.com.br/obras/indexobras.htm

A casa do mundo

Aquilo que às vezes parece
um sinal no rosto
é a casa do mundo
é um armário poderoso
com tecidos sanguíneos guardados
e a sua tribo de portas sensíveis.

Cheira a teias eróticas. Arca delirante
arca sobre o cheiro a mar de amar.

Mar fresco. Muros romanos. Toda a música.
O corredor lembra uma corda suspensa entre
os Pirinéus, as janelas entre faces gregas.
Janelas que cheiram ao ar de fora
à núpcia do ar com a casa ardente.

Luzindo cheguei à porta.
Interrompo os objectos de família, atiro-lhes
a porta.
Acendo os interruptores, acendo a interrupção,
as novas paisagens têm cabeça, a luz
é uma pintura clara, mais claramente lembro:
uma porta, um armário, aquela casa.

Um espelho verde de face oval
é que parece uma lata de conservas dilatada
com um tubarão a revirar-se no estômago
no fígado, nos rins, nos tecidos sanguíneos.

É a casa do mundo: desaparece em seguida.

Luiza Neto Jorge, O seu a seu tempo


http://www.geocities.com/ail_br/luizanetojorgeouapresentacao.html

http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/luiza_neto_jorge/poetas_luizanetojorge01.htm

http://maniasymanias.blogspot.com/2005/12/luiza-neto-jorge.html

segunda-feira, março 20, 2006

cantiga de amor em prosa quase acidental

http://www.poulhanslange.com/


Segurar os dias
Por isso quero hoje abraçar-te, hoje sem falta, já passou muito tempo desde que te prometi esta viagem.
Tenho-te ao meu alcance, da minha mão, dos meus dedos que sempre apertaram os teus, nas mãos dadas que nunca demos. A ponte está firme, apesar de oscilar, o tremor que sinto vem de dentro e tu não o vês nem nunca verás, porque é este o meu destino, a que já não fujo.

Segurar a ponte, segurar os dias, segurar os nomes de quem faz parte de mim, que me pertence e a quem pertenço.


Maria Armandina Maia

os amigos são fadas que nos põem a mão no coração

http://www.poulhanslange.com/

Cantiga de amigo

Nem um poema nem um verso nem um canto
tudo raso de ausência tudo liso de espanto
e nem Camões Virgílio Shelley Dante

o meu amigo está longe
e a distância é bastante.

Nem um som nem um grito nem um ai
tudo calado todos sem mãe nem pai
Ah não Camões Virgílio Shelley Dante!

o meu amigo está longe
e a tristeza é bastante.

Nada a não ser este silêncio tenso
que faz do amor sozinho o amor imenso.
Calai Camões Virgílio Shelley Dante:
o meu amigo está longe
e a saudade é bastante!

Ary dos Santos

sábado, março 18, 2006

Sobre os lugares interiores de cada um

António Ferra 2006

Esqueci-me do linho que queria ainda estrear, tirar da gaveta as toalhas e lençóis, e deitar-me neles, lavados, frescos, para depois os amarrotar de abraços e beijos.
Esperava o sol, que durou pouco. Mas espero sempre o sol. Vou esperá-lo até ao fim dos meus dias.

Mas o pó “é lixado”, como dizem os teus versos, que eu não consigo trazer ao de cima porque ainda não te conheço. Só sei que te gosto e te trato bem nos meus intervalos de grandes solidões, à espera que as grades se fechem que os serãos sejam mais bonitos, que os jardins me pertençam.

Trouxe flores comigo e o meu mundo, imperfeito, incandescente, mas vivo e cruamente honesto. Pus-me toda numa bandeja, como se mudasse de país. Vim para ti, a esquecer as dores e a dor, imensa, imensa.

Mas fecharam-nos as portas do jardim secreto e, quando o regas, lembras-me, infalivelmente, que devia ter sido eu a regá-lo. Eu, que amo os jardins na rua, eu que pensei que não havia nada de mal em passear nos jardins: aqui das redondezas, ou outros, os que nos levam a cruzar pessoas e a inventar-lhes a vida.

Cada um tem o seu quarto de trabalho interior. O meu está, em grande parte, nos corpos e nas vozes de quem cruza o meu caminho. Não deixes, por isso, de regar os jardins.

Armandina Maia

Correspondência(s), a tempo de nos salvar a memória

Lady with Her Maidservant Holding a Letter c.1667

Para a Armandina Maia

Querida Amiga,

Toma os comprimidos. Ao acordar, ao almoço, ao jantar.
Mas não escondas na gaveta a lâmina das palavras.
Olha a injecção, o bater do coração.
Mas não rasgues as páginas do teu romance.
Quanto a inalações, a casca de três limões.
Mas não deixes definhar o sentido da “grítica”.
Grita, refila, gesticula.
E antes de dormir faz o lava-pés
Para não deixares de ser quem és.
Mas não te submetas. Muito menos a ti própria.
Porque é assim que gostamos de ti.

P.S. E da paisagem ( alentejana, quem diria !), faz o que quiseres.
Mas não te esqueças. Toma-se às colheres.

Carlos e Marina Brandão Lucas, Natal 2000

terça-feira, março 14, 2006

como se tudo fosse princípio

Lembro-me bem da menina vestida de anjo, no corpinho coberto do tecido acetinado, envolvida em plumas esvoaçantes, com uma coroazinha na cabeça que a fazia sentir a aura dos dias nobres.
Conto vezes sem conta como chorava ao ter de deixar a roupa de anjo para ser uma menina igual às outras. Conto com pormenores de rigor que vou inventando, a segurar aquele pedaço de infância traída pela pressa da vida ou pela vida de pressa que encurtou a família não muito depois do anjo ter despido as vestes.
Conto-a e reconto-a, ouço-a contar – coisa rara nos meus ouvidos pobres de recordações – e dou corda a esta menina que dentro levava o vento e aragem, num baile que ninguém via, (só os anjos) mas que faziam os seus pés pisar as pedras como se aquele fosse o caminho da luz.

Como se tudo fosse princípio.
Maria Armandina Maia










domingo, março 12, 2006

Daniel Filipe e Mito, com João Cabral a uma só voz

Mito nha cabra-cega

HOMENAGEM EM FORMA DE CABRA

João Cabral, tua cabra
tensa, rude, agreste mola,
só cabra porque se isola
onde não há porta que abra

para outro fim que não seja
ser imaterial, mas sendo
o osso do osso, aprendendo
da alada, lírica narceja

o voo em atitude exacta,
está presente na paisagem
como coisa, não miragem
inconcreta, embora grata.

Está por dentro de si, toda.
Cabra até aos cascos finos,
confidente de meninos,
mote em cantiga-de-roda.

Está, João Cabral, bastante
no lugar, no tempo, só.
Cabra mito, sol-e-dó,
vento e calor do levante.

Daniel Filipe, “A Ilha Imaginada”, Pátria, lugar de exílio

http://www.tanboru.org/mito/expPavana.htm

ESTE POST FOI CONCEBIDO A PARTIR DE http://www.aulil.blogspot.com/, CUJA LEITURA SE RECOMENDA, QUANTO MAIS NÃO SEJA PELA EXCELENTE TROCA DE ESTÉTICAS INSULARES.

CLICANDO AQUI, PODERÁ OUVIR POESIA DE DANIEL FILIPE POR ANTÓNIO CARDOSO PINTO

sábado, março 11, 2006

Viriato Teles: quando a vida troca as contas do que nos deve

www.cm-lousa.pt

(...) Não me sinto órfão de Abril nem deserdado de Novembro, quanto mais não seja porque nasci em Março e fui pai em Junho. Mas também acredito na força da memória como elemento de preservação (...)
Do que eu gostava mesmo era que (...), de uma vez por todas, Portugal deixasse de ser um país tristonho e percebesse que há outra vida que vale a pena viver para além da vida real dos hipermercados, das sms e das telenovelas de aquém e de além-mar. E que, de uma vez por todas, a dignidade humana deixasse de ser um privilégio para passar a ser um direito universal e, portanto, não sujeita às leis da competitividade - que, como bem aprendemos nos últimos anos, não só não rima com liberdade como dá cabo da língua.

ViriatoTeles, Contas à vida, Histórias do tempo que passa

http://www.aeiou.pt/registos/v/Viriato_Teles_Pagina_pessoal.html
http://attambur.com/Noticias/20021t/fausto.htm
http://www.novacultura.de/0305bocasdecena.html
http://amegafauna.blogspot.com/2005/08/ltima-entrevista-de-vasco-gonalves-por.html
http://www.revista.agulha.nom.br/ag34capa.htmhttp://lusomatria.com/noticias.php?noticia=1252

Portugal: (ainda e só) com as três sílabas do O'Neill

www.nickjenkins.net

Portugal

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miúdinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanídeos,
se fosses só a cegarregua do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

Alexandre O’Neill

http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/alexandre_oneill/poetas_alexandreoneill01.htm

http://www.astormentas.com/oneill.htm

http://www.vidaslusofonas.pt/alexandre_o_neill.htm

http://www.citi.pt/cultura/literatura/poesia/oneill/

http://www.triplov.com/letras/petrarca.htm

http://teiaportuguesa.com/fichaautoretrato.htm

http://nescritas.nletras.com/poetasapaixonados/deoneill/

http://vemosouvimoselemos.blogspot.com/2006/01/alexandre-oneill.html

http://www.criticaliteraria.com/9725752422http://www.revista.agulha.nom.br/alexan.html



quarta-feira, março 08, 2006

Carlos Brandão Lucas: viagem ao coração dos homens

fotografia de Marina Brandão Lucas

“Entre margens” é talvez o lugar mais exacto para situar o trabalho de Carlos Brandão Lucas, que levantou as pedras do meio do caminho, ali postas há séculos como se fizessem parte da paisagem, e desatou a fazer perguntas. Entre margens, Brandão Lucas empoleirou-se no meio de um rio e começou a contar o que não cabe na cronologia dos arquivos.
O trabalho assinado por Carlos Brandão Lucas só não é “um voo cego a nada” por três razões. Porque o seu autor é um zeloso guardador de rebanhos, porque nunca esquece de que lado nasce o mar e, sobretudo, porque nunca trairá a memória dos homens, aquela que dá à "gente remota" um lugar na História.
Sem nunca perder de vista o rigor histórico e as fontes, Carlos Brandão Lucas seguiu no seu trabalho o ritual da memória como alicerces de uma ponte que permite aos homens conhecerem-se e aproximarem-se.
Carlos Brandão Lucas (d)escreve - e Marina Brandão Lucas fotografa (preciosamente) e produz - o testemunho daquilo que viu, tentando devolver-nos toda a integridade do seu deslumbramento, na sua unicidade original.
Não sei se chegará onde nos levará esta "grande viagem", porque é muito larga a água que corre entre estas margens. Sei que se a vocação multicultural deste trabalho é irreversível, pela trajectória que iniciou em torno da memória que nos une e que é, provavelmente, a nossa condição maior de sobrevivência .
Armandina Maia
http://www.museuhistoriconacional.com.br/mh-e-405.htm

segunda-feira, março 06, 2006

Amadeu Baptista: uma voz clara e brutal, como um choro que rompe a escuridão

pintura de Rogério Ribeiro

QUADROS PARA UMA EXPOSIÇÃO

(...)
outro combate enfrento, como se
ao material da memória viesse acrescentar-se
uma presença física carregada
do que é em mim a génese de um destino
e o seu entendimento, uma estranheza
que só em algumas coisas reconheço,
seja um caderno branco ou um jogo de anilinas,
um cavalete ou um labirinto,
seja um livro por ler ou o escuro vão de escada
onde vou amontoando frascos, pincéis,
tubos de tintas, figuras mitológicas,
cubos, triângulos, panos coloridos.
eu sei que essa presença é como uma ilusão
e que toda a ilusão é uma traição
no exacto sentido em que o desvendamento
é sempre uma ocultação do que se mostra.
por isso a minha arte é este rosto
em que continuadamente convoco a invenção
e nó a nó a corda do desenho
é parte convulsiva do que digo
e vou acrescentando ao mais vulgar sentido,
por ser a parte pertinente desta história
em que a história se vai redefinindo
para que o clímax se atinja e a floração irrompa
sob a forma de um silêncio
que não é mais que um grito inexorável.
estou na linha de fogo, o mais das vezes.
(...)

Amadeu Baptista, O som do vermelho, Campo das Letras

http://www.revista.agulha.nom.br/abaptista.html

http://um-buraco-na-sombra.netsigma.pt/p_mundo/index.asp?op=4&p=2369

http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/amadeu1.htm

http://www.novacultura.de/0505fabrica.html